Um velho emblema para o novo Brasil. As cadeias de cumplicidade que governam o País

Não é novidade para quem estudou que a história segue seu curso por retrocessos e avanços. 

Mas às vezes o que parece avanço é retrocesso. 

Basta que um homem chegue ao poder comprometido com seu próprio umbigo encoberto por competente discurso de ocasião, e já estarão dadas as condições para que o retrocesso seja visto como novidade, avanço, construção, melhoria.

Pois leiam o tópico abaixo:

"Não é objetivo deste livro fazer denúncias de corrupção, desta corrupção que grassa como subproduto da mistificação e do arbítrio. Minha pretensão, mais do que isso, é alertar a Nação contra o perigo que representa a presença, nos altos escalões do poder, de um grupo oligárquico que nele pretende perpetuar-se, lançando mão para tanto, como tem lançado, de todos e qualquer meio a seu alcance. E, ao alertar a Nação para os perigos a que está sujeita, eu a convoco para retornar o domínio de si mesma".
http://marcosschmidt.wordpress.com/category/serie-grandes-cabecas-degoladoras/

Uma única palavra nesse texto trai a sua data de nascimento, mas é pouco provável que muita gente perceba isso.

Vamos logo ao que interessa: o parágrafo acima está na página 8 do livro O outro lado do poder, do general Hugo Abreu, foi escrito em 1978 e revela o quadro geral da história brasileira ainda no decorrer da ditadura militar.

É um livro de quem esteve dentro do poder. Hugo Abreu foi chefe do Gabinete Militar no governo Ernesto Geisel. "Era homem de tropa. Era respeitado porque lutou na Itália, de onde voltou condecorado. Nem terno tinha quando foi nomeado chefe do Gabinete Militar do governo Geisel. Nada disso o impedia de dar uns pitacos aqui e ali". 

O livro é bem escrito sem ter pretensões de ser um tratado de História, deixando enormes lacunas ao resumir a ponte entre os dias da morte de Getúlio Vargas e a ditadura dos anos 60 em diante, mas, nos dias de hoje, equivale a uma aula de história do Brasil. É o velho emblema que cabe bem no momento atual. E este é precisamente o dilema proposto na abertura deste texto. 

O que parece avanço é retrocesso nos dias atuais. Lula, seus comparseiros e a enorme plateia que os assistem desfilam pela história como que tomados por uma embriaguês sem tamanho, uma embriaguês sem memória e sem qualidade, sem conhecimento e sem a humildade de quem sabe que não sabe.

Não há nada demais na decisão de um ex-presidente da República de pagar para ter uma coluna no jornal mais badalado do universo, mesmo não sabendo português e nem de orelha o inglês.

O problema é que essa é uma decisão paga, uma decisão de marola para esconder a areia cheia de lama, uma decisão para, dizendo o que prefere e não o que desejamos saber, esconder.

Lula tem muito a explicar. E quanto mais se remexe nos anos de seu governo pior fica o cheiro, feito de improvisos, má-fé, desvios, compadrios, elos podres, elos ricos, sede de ficar para sempre naquele que é o lugar mais transitório de uma democracia.

E como tudo neste momento merece a lupa do esclarecimento sem embaços televisivos, é lícito perguntar quem pagará a conta das artimanhas escritas que The New York Times publicará. 

Pior ainda, parece ter havido troca de interesses para que o NYT se instale no Brasil. Dilma é a gerente desse intercâmbio feito com dinheiro público?

É pertinente duvidar se os escritos lulenses, feitos com mão alheia para inglês ler, responderão a estas e a centenas de questões que a Nação brasileira espera ver respondidas, da máfia do FAT de 1994 às mamatas de dona Rosemeire e seus comparsas amestrados, passando pelos aloprados e pelo mensalão, que tudo já parece andar às voltas de ser a mesma coisa, como talvez escrevesse Saramago.

O grupo que fez tudo isso está unido, funcionando em cadeias de cumplicidade, engordando com dinheiro público e com ele fazendo novas apostas (fosse em Cuba já estariam no paredão). E pior, prostituindo tudo, tendo como ponto de referência o segundo congresso mais caro do mundo.

"E, ao alertar a Nação para os perigos a que está sujeita, eu a convoco para retomar o domínio de si mesma".

Post-scriptum: o texto acima não é uma defesa dos militares nem pretende fazer propaganda de um regime militar ainda que mitigado (com o congresso funcionando). A propósito, no livro citado ocorre a reprodução de um diálogo havido entre o autor, Hugo Abreu, e o general Orlando Geisel. Este teria dito, ainda antes de 1964: "é preciso ir com calma, colocar os militares na política é fácil, difícil é tirá-los de lá".

Ainda mais: hoje é fácil ao grupo que governa com a lógica de quadrilha falar em arbítrio e repressão, referindo-se aos militares. Muito engenhosamente omitem as razões que levaram os militares a dar o golpe de estado em 1964 e implantar, sim, uma ditadura. Mas se você não leu pelo menos 5 livros sobre esse período provavelmente não sabe que houve um golpe dentro do golpe, com um grupo de militares e civis unindo forças para preservar um estado de coisas que acobertava todo tipo de corrupção. Mera semelhança?

Comentários

Anónimo disse…
Bom mas não creio em militares.
Lucas Echimenco disse…
Esse é um tópico bem interessante e revelador. "Não crer" ou "crer". Prezado (a), não é uma questão de crer. Não gosto pessoalmente de um candidato, nem preciso, basta saber lidar objetivamente com as qualidades e defeitos. O Serra é um chato mas é extremamente competente, a ponto de ser chato. Confio mais num chato como ele. E não creio que ele deva ser simpático somente para nos agradar. Cito Serra apenas como exemplo. Hoje, voto em Eduardo Campos. abraço
Anónimo disse…
Sou neta de militar sei como são.
Lucas Echimenco disse…
Só tenho dúvida quanto a generalizar pelo prisma muito pessoal e familiar. Fui aluno de militares no auge da ditadura. Poucas vezes vi professores com tão sólida formação. Discutia muito com eles, mas na hora da prova respondia aquilo que o momento recomendava ser mais correto. O politicamente correto não é novidade nenhuma. Não cultuo militares, não cometo o vício quase ideológico de novelizar a realidade. E hoje, andando na rua, vendo tanta falta de civilidade nos mais comezinhos procedimentos do cotidiano, que é atravessar uma rua, capturei em mim mesmo um anseio de disciplina militar. Erro meu, tentação fácil para soluções que nunca serão fáceis.
Lucas Echimenco disse…
Este comentário foi removido pelo autor.