Confusão e jornalismo

PT instilou a noção de que existe outro tipo de jornalismo

Petistas sem opção desenvolvem o viés do relativismo absoluto



São os dramas de todo país em desenvolvimento. Tropeçar em obstáculos por falta de noções melhores de como as coisas funcionam. O jornalismo, por exemplo. O papel da imprensa é criticar. Informar criticamente. E os donos do negócio têm todo o direito de opinar, de escolher um lado do quadro político. E o PT sabe disso. Tanto que parte das redações foi corretamente chamada de petista por um bom tempo.

Críticos aos socialismo atribuído aos banidos, entre eles Serra e Fernando Henrique, os veículos de comunicação demoraram a assumir posição, mas preferiram uma nova direita à uma velha esquerda.

O PT nem velha esquerda é mais. É uma remontagem de coronelismo com capitalismo de estado, cevado na fabricação de fortunas pessoais.

Muito anos atrás, eu ainda repórter do Estadão, comprei briga com o ministro Cabrera (Collor), amigo da família dos donos do jornal. Foi uma disputa forte, eu na condição de repórter escrevendo que ele mandou proibir o que já estava proibido (eu acabara de voltar dos Estados Unidos onde passei 17 dias entrevistando especialistas em anabolizantes na engorda de gado).


O assunto: numa segunda reportagem, na fronteira de Mato Grosso, acompanhei a apreensão, pela Polícia Federal, de um lote com milhares de doses de anabolizantes, entrando por contrabando.

Noticiei o fato e a proibição, apontando que aquilo que parecia proibido no Brasil já estava proibido na Itália desde 1959, um certo princípio ativo chamado dietilestilbestrol suspeito de afetar adolescentes masculinos impúberes.

Muito bem, o ministro foi ao Fantástico (da Globo), patrocinou uma campanha contra a minha reportagem. 

Nunca ouvi um único senão da direção do jornal. Nunca!

Jornalismo é assim mesmo. Seja FHC ou Lula, que oposição a ambos houve. Alguns petistas que conheço montaram jornais. Sinceridade? Pelo que vi depois, não seria nem um pouco melhor trabalhar para eles. Uma coisa é discutir com alguém como Ruy Mesquista, Oliveiros e demais. Outra é receber ordem para calar.

No PT e no PSDB há fenômenos iguais, os quais comportam personalismos e autoritarismos figadais, desses que dizem "não discuta comigo". O mundo sempre os teve, sempre os terá. 

Um dos maiores obstáculos hoje, no plano das discussões facebookianas, é que há um petismo mental não consciente. Que resvala para um relativismo absoluto. Diz que tudo é relativo.

Tudo é relativo no plano geral dos acontecimentos. Mas quando duas noções invalidam uma terceira, as coisas deixam de ser relativas. 

E ficar órfão politicamente é um fenômeno relativamente novo no Brasil. Sim, por que os órfãos de Getúlio, de Carlos Lacerda, de Ulysses Guimarães são órfãos de um outro Brasil.

No petismo relativista prevalece uma noção geral de melhoria ampla e irrestrita, nascida da sensibilidade política atribuída a Lula. Se esquecem que em 1994 um sindicalista pulou fora do PT quando soube de um esquema pensado por Lula para manipular as verbas do FAT. 1994, vejam bem. Alguns atribuem a esse esquema a origem do mensalão. 1994, vejam bem.

Jornalismo é confusão e gera confusão. É assim mesmo, como assim é a realidade, da qual o jornalismo é apenas espelho.

Mas um espelho com características de água. As práticas e decisões avançam como as ondas que se espalham a partir do ponto onde uma pedra toca a água. O espelho pode ser cada vez mais deformante e deformador. E o único fator capaz de impedir o embaçamento circunstancial, cada vez mais dependente de verbas públicas de prefeituras e congêneres é o leitor. É a sociedade de leitores que melhora o jornalismo. Não é o jornal que forma leitores, quem faz isso é a escola. Não é o partido político que forma leitores.




Do ponto de vista do leitor é precisamente o embate entre partidos que forma o melhor espelho da realidade. Por isso, a liberdade de expressão é mandatória. Sem ela, nenhuma informação é confiável.

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