O aviso que vem de 1984

Por Ricardo Noblat
Trecho de abertura do livro O complô que elegeu Trancredo.
   
         Há duas Histórias do Brasil em 1984.

Uma — a que aconteceu. E a História da sucessão presidencial que, elegendo o oposicionista Tancredo Neves Presidente da República pelo voto indireto, fechou o ciclo de mandatos do regime militar e mudou, num movimento só, o governo, o regime e o país. Essa História todos conhecem, mesmo quem evitou olhar para ela de frente no momento em que passava pela política nacional, desdobrada num ano ruidoso e alegre de grandes comícios e de campanha popular praticamente ininterrupta.
Outra — a que não aconteceu. É a História frustrada e turva — inclusive porque deliberadamente escondida por seus próprios autores — de manobras, conspirações e fantasias de golpes para desmarcar um encontro da política brasileira com a opinião pública. Quiseram, na sucessão do Governo João Figueiredo, preservar em condições artificiais uma dinastia militar que, com duas décadas de existência, aspirava a uma espécie de eternidade institucional. Não deu. Uma onda irreprimível de desejo de mudança, trazendo na crista o paisano Tancredo, afogou todas essas tentativas ao quebrar contra a linha de arrebentação do Colégio Eleitoral. E assim uma série de fatos que originalmente seriam secretos para serem mais eficazes tornaram-se secretos pela ineficácia.
Mas essa História que não aconteceu também é História. Precisa ser resgatada agora como jornalismo, ainda quente, embora em forma imperfeita e provisória, para que não seja apagada mais tarde dos anais e da memória política brasileira. Esse livro guarda para o futuro um passado que fez muita força para virar presente.
Não é só. Ele mostra ainda como é difícil, que trabalho que dá a tarefa de tornar indiretas as coisas diretas. Quando se olha para o ano de 1984 pelo ponto-de-vista do que ocorria nas ruas, a sucessão era um processo descomplicado. Tudo o que realmente houve de decisivo aconteceu às claras. O povo acreditou num punhado de idéias muito simples. Que estava na hora de votar e fez o movimento nacional pelas eleições presidenciais diretas. Depois, quando essa campanha ficou para trás, contrariada pelos políticos, continuou em linha reta o seu caminho. Se não podia votar, então era hora de opinar na escolha do Presidente. E convenceu o Colégio Eleitoral a votar em Tancredo.
A sucessão resolvida nas ruas, a céu aberto, fica tortuosa quando entram em cena os políticos — e definitivamente obscura nos bastidores. A oposição vacilou algumas vezes antes de reconhecer o rumo dos acontecimentos, pressentido com antecedência pelo homem comum, que não tinha sequer o papel de eleitor de Presidentes da República. Hoje, é divertido rever a crônica dessas hesitações, reunidas nesse livro.


Baixe o livro completo neste endereço: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/publicacoesdonoblat.asp

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