Teleblogtuitando, medias sem limites.

A torrente de imagens e sons que constrói o nosso modo de ver a vida.

"Mídias sem limites" é o título do livro escrito pelo americano Todd Gitlin, professor em Nova York, dono de um vasto currículo em sociologia e comunicação social.



http://cup.columbia.edu/static/interview-todd-gitlin

A história abaixo, que usei na postagem de ontem, foi o cafezinho para uma obra que significa muito mais do que uma "contação" de histórias.


O caso: "um guarda de fronteira está para se aposentar, não está desiludido mas um único caso o persegue. Trata-se de um motorista de caminhão que sempre levantou suas suspeitas. Na véspera do encerramento de suas atividades, o policial vê chegar o tal motorista. E abre o jogo: olha, vou me aposentar, você não corre mais nenhum risco. Só me esclarece uma coisa, eu sei que você é contrabandista, mas de qual produto você faz contrabando? O motorista responde: caminhões".


Essa história funciona como uma parábola sobre o nosso modo de ver e viver com as tais "midias" sociais. E outro tópico necessário logo vem à tona, na página 15:


Diz Gitlin: "De forma oblíqua e não intencional, aludimos à maior verdade sobre as mídias com um erro gramatical. Costumamos dizer a mídia, no singular. Adeptos da gramática (como este autor) se arrepiam quando as próprias mídias ou os universitários nelas (ou nela) criados falam a mídia como se dissessem o céu".


Reagimos como se uma grande mente, una e indivisível, operasse todos os controles da comunicação social, vendo PIGs e Parties em toda parte, sufocando as ações específicas, atrelando a ação individual a um e somente um arranjo conceitual, simplista e medíocre e, claro, afastando a possibilidade de uma percepção mais realista.




O livro foi lançado no Brasil
pela Civilização Brasileira


A busca por estímulos


É o contrabando da imagem naturalizando a forma de ver a imagem. Logo, a virtualidade é um dos assuntos enfocados no livro. O autor mostra como não há nada de novo na ideia de alguém se fazer acompanhar como estando próximo por aquilo que está absolutamente distante, apenas que mediado, hoje, por meios e aparelhagens eletrônicas.


Gitlin correlaciona esse fator ao que ele chama de cultivo de sentimentos contraditórios. São o fruto da nossa busca por sentimentos que compensem nossa extrema aceitação dos processos de disciplina que nos cercam. E, assim, entramos numa busca constante por estímulos.


E a religião não é a salvação, se é que o termo salvação tem mesmo alguma serventia. Mesmo quem se ocupa das artes e ritualísticas religiosas está, na verdade, realimentando a "torrente das mídias". Não constitui surpresa a igreja ter feito da televisão uma extensão de púlpitos e naves e de ter a própria igreja física virado casa de rock ou simulacro de casa de shows.


Invasores de sentimentos


E Gitlin mostra como, na história das comunicações humanas, a religião ganhou o peso e força que tem, precisamente pelo fato de ter sido "a primeira forma de diversão dos seres humanos". Pense numa sociedade regrada pelas horas dedicadas a plantar, colher, moer, limpar, cavar, montar, comer, nivelar, trancar, pastorear, deitar e, ufa!, dormir. A única hora possível para "nada fazer" era na igreja mesmo.


Escrito no início dos anos 2000, o livro mostra fenômenos sociais já presentes no cotidiano dos nova-iorquinos que somente agora são visíveis no Brasil, como a "onda" de pessoas que trafegam com seus carros com o som a mil decibéis, a qualquer hora do dia, de manhã ou de madrugada. "São os invasores dos nossos sentimentos", precisando alimentar novos sentimentos.


Contrabandeando diversão, as mídias nos fizeram crer num mundo autóctone, aparentemente sem opção.


Mas esse mundo é altamente manipulável, vemos hoje, 11 anos à frente. O jornalista Elio Gaspari escreveu ontem no portal dele: "estamos nos enchendo de tecnologia para entrar no futuro sem sair do passado".


O modo como as mídias modificam a natureza da observação é tão irresistível que levou certo resenhador, num artigo de 2002, a se perguntar sobre o livro: "Is a book like Media Unlimited disease or diagnosis?" (Um livro como Media Sem Limites é uma doença ou um diagnóstico?).



Na verdade, Gitlin sabe que o livro não é uma doença. O que ele faz, como poucos autores têm coragem de fazer, é perguntar-se se a presença das mídias chega a ser tão visceral que mesmo uma consciência crítica sucumbe ante seus encantos.


Seus livros posteriores procuram ampliar a escavação em busca do graal da melhor noção de como reagir a essa torrente que subjuga nosso modo de viver e de ver a vida.


Façam suas apostas. Quem consegue ficar 5 minutos sem desejar ver ou fazer alguma coisa motivada por algo que não seja teleblogtuitado? É a invasão da comunicação total, simultânea, de todos para todos mesmo para quem não quer, de todos os lados e em todas as direções.


A alavanca corporativa


O rigor de Gitlin, natural num pensador assumidamente de esquerda numa sociedade como a norte-americana, tenta abarcar fenômenos que produzem resultados mais visíveis, mas nem sempre ao alcance do senso comum, eis uma chave pela qual se orienta a leitura do livro quase dez anos após seu lançamento.


Mas Gitlin não alcançou a onda do Twitter como o fenômeno que vivemos hoje, não nessa obra. Por isso, não será nessa leitura que os acontecimentos mais atuais estarão analisados, como o twitter, um dos mais ativos frutos dessa comunicação total, alardeante, misturada de serviço e de fofoca, altamente pilotado por alavancas corporativas não muito claramente assumidas, ainda em estado de disfarce, de manipulação mesmo.


PS:

"Mídias sem limite", de Todd Gitlin, pode ser lido em paralelo com outro livro, "O declínio da vida pública - as tiranias da vida cotidiana", de Richard Sennett.


E para uma leitura que faça a ponte entre tempos remotos e recentes, leia A sociedade do espetáculo, de Guy Debord, escrito em 1967. Debord morreu em 1994, deixou um estilo raro de escrever. Seus tópicos são todos numerados. Eis o de número 4: "O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens".


O livro pode ser baixado em pdf neste endereço:

http://www.arq.ufsc.br/esteticadaarquitetura/debord_sociedade_do_espetaculo.pdf

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