Uma cidade sequestrada



Por Lucas Echimenco

Eram 19h09 quando os sinais da avenida Paulista mudaram de mãos. A menos de dois quilômetros dali, perigosamente no horário de pico e de grande movimento no metrô, com trânsito parado, o alarido chegou com o já velho slogan: O povo unido.... blá blá blá.

Era o ponto mais calmo da manifestação que na quinta-feira, 13, parou São Paulo a partir da região central. Quando o grosso dos estudantes chegou à rua Augusta, a Polícia resolveu fazer aquilo que já era para ter feito. Havia um planejamento que dizia aos policiais que a manifestação não poderia chegar à avenida Paulista.

Aos bandos, os estudantes avançaram para logo em seguida recuar, movidos pelo pelotão de frente da Polícia Militar, em formação ombro-a-ombro, escudos, longos cassetetes e muita bomba de gás lacrimogêneo.




Os estudantes bateram em retida para dois lados, ambos pela rua Augusta. Comerciantes e restaurantes foram fechando suas portas numa rapidez de cinema. Motoristas faziam meia-volta na Augusta e tentavam escapar do confronto.

Por duas horas, a esquina da Paulista com Augusta virou encruzilhada de gritos e bombas.

O pelotão do Choque alinhado fechava a avenida. Parado, em silêncio. Jogo psicológico que assusta.

O bando de manifestantes se comportava assim mesmo, bando.

Afastados várias vezes pelo caminho, os manifestantes voltavam a se reagrupar numa atitude de enfrentamento. Mocinhas simpáticas na calçada gritavam “sem violência, sem violência”. Um gaiato passou e gritou: “baixa o pau, baixa o pau”.

Ou seja, na plateia não havia consenso.

Passei pelo flanco esquerdo do pelotão de frente a metros da rua Frei Caneca. O ponto-chave da polícia. Desse ponto adiante “no passarám”. Conversei com dois policiais. Um estranhou mas ficou quieto. O outro disse que estava tudo sob controle, agora. “Agora” queria dizer fora de hora pois que já eram 22h14.

Avancei, sempre pelo flanco esquerdo, até a rua Augusta e passei para o lado dos manifestantes. Fotografei vários, alguns chorando, outros xingando, os primeiros pelo gás liberado nos primeiros confrontos, os segundos por alguma espécie de tardia decepção. Com o comando deles ou da polícia? Difícil saber. Alguém berrou: polícia assassina, filha da puta.

Nenhum brado contra o PT, nenhum.

Comecei a descer a Augusta em direção a Luís Coelho. Fotografava um manifestante queimando lixo no meio da rua quando a turba veio pra cima de mim. Mas não era pela fotografia. O Choque soltou umas quatro bombas e avançou em formação pesada. A turba corria da polícia e eu no meio dela. Como não combinei com a polícia que eu era um sábio tibetano, corri em retirada no meio da turma de manifestantes. Éramos uns 50.

Pela Luís Coelho caminhei em direção a Bela Cintra. Novo corre-corre. De novo, o Choque avançava. Foi nesse quarteirão que entendi a estratégia. A polícia empurrava a turma para fora da Paulista, sempre deixando o flanco direito livre, uma rota de fuga. Bastava ser meio inteligente para perceber.

Mas jornalista não presta mesmo, muitas vezes morre por isso. Resolvi checar se era assim mesmo. Fiz meia-volta e avancei pela Bela Cintra em direção à Paulista. Dei azar. Cheguei em frente ao São Luís precisamente na hora que o Choque avançava, e eu sem meu passaporte especial de guarda noturno, nem licença de frequentação de igrejas, nem carta do dia dos namorados no bolso, nada.

As bombas de gás explodiram. A garganta arde como uma desgraça, não consigo ficar de olhos abertos... Encosto numa parede e me abrigo atrás de um imenso placar da Drogaria Onofre. “Eles vão ver minhas pernas, tô fodido”, pensei.

Não viram, coloquei a cara pra fora. Faltavam uns cinco metros para escapar. Escapei mas, de novo, topei com manifestantes, eles vinham fugindo da cavalaria da PM. Parei e pensei. Fiquei parado, só olhando. A cavalaria passou, nem um pio. A molecada correu foi de cagaço mesmo.

Caminhei quase tranquilo até a Paulista e desta rumei para a Consolação. Um anjo ou demônio bonzinho dizia, "pelas esquerda, animal, pelas esquerda, porra!". Sai do flanco direito e foi minha sorte. 


Mal havia acabado de cruzar a Consolação quando um festival de bombas de gás começou a explodir. Pelo corredor central me abriguei num ponto de ônibus. Gritei para um policial do Choque que eu estava esperando o ônibus. Ele disse: “tudo bem, aí você pode ficar”. Um transeunte tentou cruzar à frente da guarnição em posição. Foi contido e mandado de volta. O cara não percebeu ou talvez pensasse em suicídio, não sei, nunca vou saber.

Olhei a Consolação. Estava ficando vazia. Os manifestantes estavam mesmo se dispersando. Chegaram dois ônibus blindados do Choque, umas cinco viaturas iniciavam manobras rápidas. Todo o pelotão subiu nos ônibus, que partiram na contra-mão. Voltei ao cruzamento da Paulista com Consolação. Restos de fumaça do gás, policiais continuavam cobrindo todo o flanco esquerdo, por ali ninguém passaria mesmo. Pelo caminho que vieram os manifestantes foram “levados” de volta.

Transmiti minha última mensagem no facebook: PM acaba de limpar a confluência da Paulista com Consolação.











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