Introdução aos franceses de ontem e aos brasileiros de hoje


Por José Ortega y Gasset

Quem não gostaria de publicar um texto assinado por José Ortega y Gasset? Muito bem, Gasset morreu em 1955 sem poder montar um blog e falar para uma multidão sem sair do assento de seu escritório. É, todavia, duvidoso que ele se empenhasse num tipo de comunicação desses sem ter eriçados todos os seus escrúpulos pois, como se verá, Gasset tinha na conta de tarefa temerária "falar a todos e a ninguém"...

Mas, afinal, vivemos outros tempos.

Talvez esta leitura agrade a você que já leu, e a você que não sabe que pito toca o cidadão que assina esta página e a leitura de algo escrito há mais de 80 anos. Avançamos? Ficamos na mesma? Quanto ficamos para trás?

Hoje sai esta publicação com um trecho minúsculo da obra A rebelião das massas, cuja redação iniciou-se em 1926 num jornal de Espanha.

A versão desta tradução, em português, não foi corrigida segundo as regras das modas reformantes da ortografia voltada para escolas desmoralizantes.

Dentro de dois dias publicarei a parte II desta que é, apenas, a introdução que Gasset escreveu aos franceses. Retirei apenas as 25 notas de rodapé, e minha janela virtual mostra um Gasset dizendo para si mesmo: "eu sabia, eu sabia, eu sabia que o Lucas faria isso".

Já está na hora de nos metermos a franceses. Vai que copiando pelo errado chegamos ao lado certo da coisa toda, sendo a coisa toda simplesmente a nossa história.

Ganha um chocolate de 20 centavos quem concluir a leitura e pedir mais.

Senhoras e senhores, Ortega y Gasset


A rebelião das massas

PRÓLOGO PARA FRANCESES
Parte I

Este livro - supondo que seja um livro - data... começou a ser publicado num jornal madrilenho em 1926, e o assunto de que trata é demasiado humano para que pudesse escapar à ação do tempo. Há sobretudo épocas em que a realidade humana, sempre instável, se precipita em velocidade vertiginosa. Nossa época é dessa classe porque é de descidas e quedas. Daí que os fatos ultrapassaram o livro. Muito do que nele se enuncia foi logo um presente e já é um passado. Além disso, como este livro circulou muito durante estes anos fora da França, não poucas de suas fórmulas chegaram ao leitor francês por vias anônimas e são puro lugar comum. Teria sido, pois, excelente ocasião para praticar a obra de caridade mais adequada a nosso tempo: não publicar livros supérfluos. Eu fiz tudo que me foi possível em tal sentido - vai para cinco anos a Casa Stock me propôs a sua versão -; mas me fizeram ver que o organismo das idéias enunciadas nestas páginas não corresponde ao leitor francês, e que, acertada ou erroneamente, seria útil submetê-lo a sua meditação e a sua crítica.

Não estou convencido disso, mas não há motivo para formalismo. Importa-me, entretanto, que não entre na sua leitura com ilusões injustificadas. Conste, pois, que se trata simplesmente de uma série de artigos publicados num jornal madrilenho de grande circulação. Como quase tudo que escrevi, estas foram páginas escritas para uns quantos espanhóis que o destino colocou à minha frente. Não é sobremodo improvável que minhas palavras, mudando agora de destinatário, consigam dizer aos franceses o que elas pretendem exprimir. Não posso esperar melhor sorte quando estou persuadido de que falar é uma operação muito mais ilusória do que se supõe, certamente, como quase tudo que o homem faz. Definimos a linguagem como o meio de que nos servimos para manifestar nossos pensamentos. Mas uma definição, se é verídica, é irônica, encerra tácitas reservas, e quando não a interpretamos assim, produz funestos resultados. O de menos é que a linguagem sirva também para ocultar nossos pensamentos, para mentir. A mentira seria impossível se o falar primário e normal não fosse sincero. A moeda falsa circula apoiada na verdadeira. No final das contas, o engano vem a ser um humilde parasita da ingenuidade.


Não; o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista com que costumamos escutá-la. Porque ela mesma não nos assegura que mediante a linguagem possamos manifestar, com suficiente justeza, todos os nossos pensamentos. Não se arrisca a tanto, mas tampouco nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem impossível entender-se com seus semelhantes, estando condenado à radical solidão, esgota-se em esforços para chegar ao próximo.


Desses esforços é a linguagem que consegue às vezes declarar com maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós. Apenas. Mas, habitualmente, não usamos estas reservas. Ao contrário, quando o homem se põe a falar, isto faz porque crê que vai poder dizer tudo que pensa. Pois bem, isso é o ilusório. A linguagem não dá para tanto. Diz, mais ou menos, uma parte do que pensamos e põe uma barreira infranqueável à transfusão do resto. Serve bastantemente para enunciados e provas matemáticas; já ao falar de física começa a ser equívoco e insuficiente. Porém quanto mais a conversação se ocupa de temas mais importantes que esses, mais humanos, mais "reais", tanto mais aumenta sua imprecisão, sua inépcia e seu confusionismo. Dóceis ao prejuízo inveterado de que falando nos entendemos, dizemos e ouvimos com tão boa fé que acabamos muitas vezes por não nos entendermos, muito mais do que se, mudos, procurássemos adivinhar-nos.


Esquece-se demasiadamente que todo autêntico dizer não só diz algo, como diz alguém a alguém. Em todo dizer há um emissor e um receptor, os quais não são indiferentes ao significado das palavras. Este varia quando aquelas variam. Duo si idem dicunt non est idem. Todo vocábulo é ocasional. A linguagem é por essência diálogo, e todas as outras formas do falar destituem sua eficácia. Por isso, eu creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente, em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente seu leitor e este percebe como se dentre as linhas saísse uma mão ectoplástica que tateia sua pessoa, que quer acariciá-la - ou bem, mui cortesmente, dar-lhe um murro.

Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. Como em tantas outras coisas, o abuso aqui consistiu no uso sem preocupação, sem consciência da limitação do instrumento. Há quase dois séculos que se acredita que falar era falar urbi et orbi, isto é, a todos e a ninguém. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo.

Contam, sem insistir demasiado sobre a realidade do fato, que quando se celebrou o jubileu de Victor Hugo foi organizada uma grande festa no palácio do Elíseo, da qual participaram, levando suas homenagens, representações de todas as nações. O grande poeta achava-se na grande sala de recepção, em solene atitude de estátua, com o cotovelo apoiado no rebordo de uma chaminé. Os representantes das nações adiantavam-se ao público e apresentavam sua homenagem ao vate da França. Um porteiro, com voz estentórica, anunciava-os:

"Monsieur le Représentant de l'Anglaterre!" 

E Victor Hugo, com voz de dramático trêmulo, virando os olhos, dizia: "L'Anglaterre! Ah,
Shakespeare!" 
O porteiro continuou: 
"Monsieur le Représentant de l'Espagne"! 
E Victor Hugo: "L'Espagne! Ah, Cervantes!" 
O porteiro:
"Monsieur le Représentant de L'Allemagne!" 
E Victor Hugo:
"L'Allemagne! Ah, Goethe!"

Mas então chegou a vez de um senhor baixo, atarracado, balofo e de andar desgracioso. O porteiro exclamou: "Monsieur le Représentant de la Mésopotamie!"

Victor Hugo, que até então permanecera impertérrito e seguro de si mesmo, pareceu vacilar. Suas pupilas, ansiosas, fizeram um grande giro circular como procurando em todo o cosmos algo que não encontrava. Mas logo se viu que o achara e que recobrara o domínio da situação. Efetivamente, com o mesmo tom patético, com a mesma convicção, respondeu à homenagem do rotundo senhor dizendo: "La Mésopotamie! Ah, L'Humanité!"


Contei isso a fim de declarar, sem a solenidade de Victor Hugo, que não escrevi nem falei à Mesopotâmia, e nunca me dirigi à Humanidade. Esse costume de falar para a Humanidade, que é a forma mais sublime, e, portanto, a mais desprezível da demagogia, foi adotada até 1750 por intelectuais desajustados, ignorantes de seus próprios limites e que sendo, por seu ofício, os homens do dizer, do logos, usaram dele sem respeito e precauções, sem perceberem que a palavra é um sacramento de mui delicada administração.


A segunda parte deste prólogo inaugura uma nova página neste blog: A rebelião das massas: http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4275586274820288789#editor/target=page;pageID=8010621148302204320

A partir do dia 16 de julho de 2013 toda a sequência da obra A rebelião das massas será juntada na página específica: 

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