"O ódio aquece o coração"



"Ele é um fanático e, além disso, é judeu. Melhor manter distância dele. Eu não quero destruir os judeus, até ousaria dizer que os judeus são os meus melhores aliados. Estou interessado na firmeza moral do povo russo e não desejo que esse povo dirija suas insatisfações contra o czar. Portanto, esse povo precisa de um inimigo. É inútil procurar inimigos distantes. Para ser reconhecível e temível, o inimigo deve estar em casa, ou na soleira da porta. Eis por que os judeus. Então vamos usá-los, meu Deus, e rezemos para que haja sempre um judeu a temer e a odiar. É necessário um inimigo para dar ao povo uma esperança. Alguém já disse que o nacionalismo é o último refúgio dos canalhas. Quem não tem princípios morais costuma se enrolar em uma bandeira, e os bastardos sempre se reportam à pureza de sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Muito bem, o senso de identidade se baseia no ódio como paixão civil. O inimigo é o amigo dos povos. É sempre necessário ter alguém para odiar, para sentir-se justificado na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial. O amor, sim, é uma situação anômala. Por isso, Cristo foi morto: ele falava contra a natureza. Não se ama alguém por toda a vida; dessa esperança impossível nascem adultérios, matricídios, traições dos amigos ... Ao contrário, porém, pode-se odiar alguém por toda a vida. Desde que esse alguém esteja sempre ali, para reacender nosso ódio. O ódio aquece o coração”. 


De Rachkovsky a Simonini, no diálogo que encaminha o confronto final no romance histórico O cemitério de Praga, página 370, de Umberto Eco, Editora Record, Brasil, 2011. 


PS: Qualquer comentário sobre este tópico apenas, no Facebook ou qualquer outra mídia digital, será uma temeridade sem o conhecimento da natureza do confronto relatado aqui: verdades ocasionais e vários contextos criados para confundir e conduzir as noções públicas de verdade e de mentira. O papa, sabe-se já há séculos, é um ser político.

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