Autoritarismo e atraso

Por Salvatore D' Onofrio


“A verdade é filha do tempo e não da autoridade”

A frase em epígrafe talvez resuma o significado mais profundo da dramaturgia do escritor alemão Bertolt Brecht (1898-1956), que nos faz refletir sobre nossa realidade, estimulando mudanças éticas e sociais. Sua peça mais famosa é “A vida de Galileu”, o cientista italiano que, junto com Copérnico e Newton, constitui a tríade da Renascença européia que revolucionou a ciência astronômica, demonstrando que é a Terra a girar e não o Sol ao redor dela. Estavam, assim, comprovados os princípios da esfericidade do nosso planeta, da atração terrestre e da gravitação universal.

Mas a Igreja de Roma não aceitou essas descobertas científicas, que demonstravam a falsidade do que estava escrito no Velho Testamento, conjunto de livros considerados sagrados e fundamento doutrinário das três religiões abraâmicas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. No ano de 1600, o Tribunal da Inquisição condenou à morte na fogueira Giordano Bruno, frade dominicano que sustentava a tese de um Universo infinito, povoado por muitas estrelas e planetas, além do sol e da lua, com a possibilidade da existência de vida inteligente fora da Terra. Para que não se espalhassem tais “heresias”, antes da execução em praça pública, foi colocado um pedaço de madeira na boca do estudioso napolitano. Galileu Galilei não teve a coragem de Giordano Bruno e se retratou para evitar a morte, concordando com os inquisidores sobre a imobilidade da terra, embora sussurrasse a famosa frase: “Eppur si muove” (no entanto, a terra se movimenta).

É inacreditável como seres inteligentes, que viveram em pleno Renascimento da Europa, mesmo após o obscurantismo medieval, ainda continuassem a negar a evidência dos fatos. Os grandes navegadores (Cristóvão Colombo, Américo Vespucci, entre outros) verificavam a curvatura das águas dos oceanos, Leonardo da Vinci e outros cientistas observavam a miríade de galáxias no firmamento através de poderosos telescópios, mas as religiões continuaram a ensinar que a terra era uma plataforma chata e imóvel no centro do mundo, simplesmente porque assim afirmara Moisés, mais de duas dúzias de séculos atrás. É interessante notar que o princípio da autoridade já vinha sendo questionado na Índia, na mesma época de Galileu, por Akbar o Grande, imperador mongol (1542-1605), ao afirmar: “A busca da razão e a rejeição do tradicionalismo são tão brilhantemente evidentes que estão acima da necessidade de argumentar” (in A idéia de justiça, de Amartya Sem).

Não deveria haver argumentos contra raciocínio lógico, realidade histórica, descoberta científica ou bom senso, pois a verdade é filha do tempo, sendo a evolução a matriz do verdadeiro conhecimento. O tempo nos diz quem é quem, desmascarando pressuposições ou mentiras. Mas, infelizmente, a maioria dos homens não consegue superar o instinto gregário, herança de sua origem animalesca, preferindo ser conduzida por um pastor, em lugar de pensar com sua própria cabeça. Daí o surgimento de profetas (Moisés, Maomé) que, achando-se inspirados por alguma divindade, impuseram doutrinas e normas de vida que, se tinham alguma utilidade naquele tempo e lugar, hoje não fazem mais sentido. O mesmo diga-se de líderes políticos antigos (faraós ou imperadores romanos que se achavam deuses, promoveram guerras sangrentas e fizeram obras grandiosas (Pirâmides, Colisseu) às custas do trabalho escravo) ou modernos (Hitler, Stalin, que cometeram barbaridades em nome de falsas ideologias), tanto aplaudidos pela massa ignara. A citada peça de Bertolt Brecht, “A vida de Galileu”, nos ensina que o melhoramento cívico não é obra de um indivíduo, mas da coletividade, como podemos verificar pelo seguinte diálogo entre os dois personagens principais:

André Sarti: “Desgraçado o país que não tem heróis”

Galileu: “Desgraçado o país que necessita de heróis”.

Urge construir uma democracia de onde sejam banidos líderes políticos e religiosos fanáticos, porque o melhoramento social não depende de bênçãos divinas (que nunca chegam!) ou da bondade de um príncipe (rei ou presidente). O poder do Estado tem que ser diluído entre cidadãos honestos e competentes e não concentrado em oligarquias que usam o dinheiro público em seu benefício, comprando o voto popular para se eternizarem nos cargos públicos. E isso é possível, pois está acontecendo nos países mais desenvolvidos do Norte da Europa. Pouca gente sabe quem é o chefe do governo da Suécia, Suíça, Noruega ou Dinamarca, porque tais nações são administradas por técnicos concursados, que não devem favores aos chefões políticos de plantão. Hoje em dia, um movimento de esclarecimento da massa popular se torna possível graças aos recursos da Internet.


Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)

www.salvatoredonofrio.com.br
http://pt.wikisource.org/wiki/Autor:Salvatore_D%E2%80%99_Onofrio









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