Dia da Pátria -- Dom Pedro ficou no Brasil não para a felicidade do povo, mas para aquela de barões e coronéis --

Por Salvatore D'Onofrio

No dia 7 de setembro se comemora o dia da pátria, pois, neste dia, em 1822, foi proclamada a Independência do Brasil, deixando de ser uma colônia de Portugal. Tal proclamação foi conseqüência de uma longa e sangrenta luta contra a prepotência do imperialismo português, cujo ato mais violento foi a execução de Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira, em 21 de abril de 1792. Três décadas depois, em 9 de janeiro de 1822, o famoso “dia do fico”, o próprio Dom Pedro, então Regente, se revolta contra a Coroa lusitana, recusando-se a retornar a Portugal, sendo proclamado Imperador do Brasil, em 12 de outubro do mesmo ano.
 

(OBS: tomo a liberdade de acrescentar um link (http://lucasechimenco.blogspot.com/2011/12/farsa-da-inconfidencia-mineira.html) que desmente a "farsa da inconfidência mineira". Assinado: Lucas Echimenco)
 
Mas sua famosa frase: "Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico", não se confirmou ao longo da história do Brasil, pois ao imperialismo português sucederam outras formas de opressão social. Dom Pedro ficou no Brasil não para a felicidade do povo, mas para aquela de barões e coronéis, que se enriqueceram com o trabalho escravo de indígenas, africanos e imigrantes pobres. O sistema escravagista só terminou quase no fim da época imperial, com a Lei Áurea de 13 de maio de 1888. E mesmo assim, apenas legalmente, pois continuou (e continua) a exploração do trabalho humano, quando não há uma justa remuneração por serviços prestados.


Quem contribuiu muito para o fim da escravidão foi o cientista inglês Charles Darwin, o pai da teoria evolucionista, contestando o relato bíblico da criação do mundo em seis dias e da origem divina do ser humano. Depois de publicar sua famosa obra “A origem das espécies” (1859), em que demonstra cientificamente que a diferença entre o homem e o animal não é de natureza, mas de grau, sendo o ser humano apenas um primata mais desenvolvido, doze anos depois, num outro livro genial, “A descendência do homem”, apresenta as raízes biológica da moral. Por essa nova antropologia, o homo sapiens surgiria da evolução de formas simples através de um longo processo de adaptação a sucessivos ambientes diferentes: descida da árvore, ereção dos membros dianteiros para olhar para o alto e para frente, aumento do cérebro, desenvolvimento da linguagem, da fantasia, da sociabilidade.


É a vivência em comum, motivo da conservação e do progresso de uma espécie, que fez surgir o conceito de “pátria” (do latim pater = pai), considerada uma grande família que comunga espaço geográfico, língua, sentimentos, aptidões. As aglomerações humanas herdaram dos animais os dois instintos básicos e contrastantes: o egoísmo do lobo que come o cordeiro para saciar sua fome e o altruísmo das abelhas que trabalham em conjunto para produzirem alimento para outros. Os povos mais civilizados apresentam um bom equilíbrio entre essas duas tendências naturais, que se traduz no aparato jurídico da imposição de deveres e usufruto de direitos.


Infelizmente, a pátria brasileira ainda não está gozando de um “Estado de Direito” pleno, onde a lei seria igual para todos, na realidade e não apenas no papel; onde cada qual seria remunerado conforme o mérito, o trabalho realmente efetuado, com a abolição de qualquer forma de privilégio. O dinheiro do erário público deveria ser administrado exclusivamente para atender às necessidades dos contribuintes no tocante a educação, saúde, transporte coletivo, segurança, planejamento familiar. Mas os profissionais da política formaram uma classe poderosa que se eterniza no governo da republica, abusando da boa fé da massa popular carente e desinformada, que vende seu voto em troca de algum benefício. E pouca gente percebe que a conduta de nossos políticos é uma grave ameaça às instituições democráticas, pois a injustiça, a corrupção e a impunidade criam revoltas e estas estimulam intervenções militares que, para estabelecer a ordem pública, impõem, outra vez, regimes ditatoriais.

Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
http://pt.wikisource.org/wiki/Autor:Salvatore_D%E2%80%99_Onofrio

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