Roberto Marinho deve estar dando voltas e mais voltas em seu féretro

Por Paulo Martins

Cinquenta anos depois, esculpir uma mentira contra a memória de seu próprio ícone. Despe-se melancolicamente a Rede Globo de todo e qualquer resquício de dignidade que supostamente ainda inspirasse seu sistema de jornalismo. Roberto Marinho deve estar dando voltas e mais voltas em seu féretro. A multa bilionária contra a Globo, denunciada pela Rede Record, deve ter sido o fermento que fez crescer a até então inimaginável cortante e diabólica “vira casaca”. Deslealdade para com um cadáver. Escárnio!

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Foi justamente em defesa da democracia, agora negada pela Globo, que foi feita a revolução de 1964. Eu estava lá. É “mentira dos mentirosos” de hoje, que se desclassificam ética e moralmente, repetirem a insanidade de ideólogos imbecis e corrosivos que tentam pregar que “houve um golpe”. Golpe foi o que o governo do PT aplicou no Brasil doze anos atrás, transformando esse país, perplexamente, no maior caldeirão de corrupção, indignidade e imoralidade do mundo. Que fique claro, repito, não houve golpe em 1964 – o que houve foi a defesa da democracia através de um contragolpe, exigido à época pelo povo que foi às ruas!

Eu estava lá, repito, e não sou e nunca fui militar. Eu fui sequestrado naquele primeiro dia de abril, fui confinado num estúdio da Farroupilha e fui obrigado a ler ao microfone manifestos que eram redigidos por celerados de esquerda, por verdadeiros delinquentes armados e ameaçadores. A certa altura tentei sair e dar o lugar ao colega Elias Soares e fui impedido por Leonel Brizola, ou seja, continuei no cativeiro. Arthur Godoy, Henrique Xavier são outros dois colegas que estão vivos e foram testemunhas do episódio. Resultado: Terminada a desordem após comício na frente da Prefeitura, fugiram e quando tudo voltou ao normal, me foi cortado cachê que eu recebia pela apresentação diária do Informativo Província, cortado pela agência McCann que detinha a conta do patrocinador Banco da Província, pois alegaram que eu havia me “ligado aos subversivos”, dedução devido a divulgação dos manifestos. Não adiantou eu ter alegado que fora obrigado, que fora constrangido, que fora oprimido.

E não abri processo de ressarcimento como fazem hoje os terroristas de ontem que mataram, jogaram bombas, assassinaram, metralharam, sequestraram, torturaram...e ainda professam alegações cretinas apontadas como “No tempo da ditadura”. De resto, qual a legitimidade desses moleques de hoje da direção da Globo para desmerecerem posicionamento do próprio pai à época, se não passavam de moleques? Qual a legitimidade para distorcerem postura do próprio pai, julgando-se no direito de sapatearem sobre um cadáver, escarrarem sobre o caixão, insultarem uma memória cujo dono não pode se defender? Diante de atitude tão infame, repugnante, traiçoeira e despudorada, Roberto Marinho, se vivo, certamente apelaria para exame de DNA colocando sob suspeita essa filiação. Que vergonha. A que condição levaram nossa Nação. Não mais se respeita nem cadáver e nem memória nessa terra, mesmo que o cadáver e a memória sejam do próprio pai.

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