Amor humano

Por Salvatore D' Onofrio

“Amai-vos uns aos outros”

A frase acima, mais do que uma exortação, deveria ser considerada um preceito, uma imposição social. A sentença encontra-se nos evangelhos do Novo Testamento, atribuída a Jesus Cristo, o maior gênio da humanidade, a meu ver. Ele teve o inefável mérito de revolucionar o conceito de divindade, substituindo o deus do Velho Testamento, o Jeová dos judeus, discricionário (protetor apenas de um povo) e vingativo (“olho por olho, dente por dente”), por um deus Pai de todos os povos. Substituir o ódio pelo amor nas relações de qualquer agrupamento social, inclusive entre etnias diferentes, significa alcançar a essência da humanidade, que consiste, conforme minha opinião, em superar o egoísmo individual e natural, a lei da selva, própria dos seres irracionais.

Sabemos muito pouco acerca da figura histórica de Jesus Cristo, pois ele, como os outros dois profetas do monoteísmo abraâmico (Moisés e Maomé), não deixou escrito algum. As desencontradas notícias sobre sua vida e seus feitos nos chegaram pelo relato de discípulos, admiradores, historiadores judaicos, gregos e romanos, decênios após sua morte. Os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, os considerados canônicos pela religião católica, foram reconhecidos apenas por volta do ano 150 d.C. como parte do Novo Testamento. Por recentes pesquisas arqueológicas, foram encontrados mais 112 textos, em códigos de papiro, enterrados nas proximidades do Mar Morto, inclusive os evangelhos de Judas e de Maria Madalena.

Na verdade, não sabemos ao certo quem escreveu os evangelhos e os outros livros que falam de Jesus. Durante a passagem da oralidade para a escrita, sua difusão circulou no anonimato. O que podemos supor como historicamente verdadeiro é que Cristo foi um judeu culto (aos doze anos discutia com os Doutores da Lei, no templo de Jerusalém); que passou a maior parte de sua vida em meditação no deserto, junto à seita dos essênios, que viviam em sociedade comunitária; que aos 30 anos sentiu uma necessidade espiritual de voltar à vida da cidade, pregando o desapego aos bens materiais, o perdão dos pecados, o amor ao próximo. Ao redor desta figura histórica, aos poucos, foram se criando mitos, transformados em dogmas de fé. Jesus Cristo, embora fosse uma figura carismática, nunca afirmou ser o Messias prometido pelos profetas do Velho Testamento, o Filho de Deus Pai, salvador da humanidade pela reparação do pecado original e fundador de uma nova religião.

Como já foi dito, Cristo não pertence ao cristianismo, mas à humanidade toda, pela sua mensagem de amor, entendido não como caridade, esmola ou sentimento piegas, mas como respeito recíproco entre cidadãos. Qualquer homem com suficiente lucidez mental deveria perceber que ninguém pode ser feliz no meio da miséria, pois ela é fruto da ignorância e da iniqüidade, gerando ódio e violência. Mas, infelizmente, esta mensagem de Jesus não foi acatada pela maioria dos povos. Após mais de dois milênios, continuam as guerras entre etnias e credos diferentes, a violência na cidade e no campo, a corrupção política e a impunidade, a injustiça social, a falta de planejamento familiar e de assistência às crianças, causa primordial do avanço do narcotráfico, o câncer da vida familiar e social. Para melhorar nossa vida, em lugar de esperarmos ajuda de ídolos religiosos ou de líderes políticos, seria mais proveitoso lutarmos para a construção de uma cidadania de verdade com base numa democracia participativa. A busca da verdade existencial, que poderia propiciar paz e amor entre os homens, exige mais pensamento e reflexão do que crença!



Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
http://pt.wikisource.org/wiki/Autor:Salvatore_D%E2%80%99_Onofrio

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