O complexo de Júpiter


Por Salvatore D'Onofrio

O Diário da Região está de parabéns pela nova página “Rio Preto Pensa” no caderno Vida & Arte, aos sábados. Para enfrentar a concorrência dos recentes meios de comunicação eletrônica, o jornalismo impresso, mais do que apenas informar, tem que formar uma consciência cívica, estimulando os leitores a refletirem sobre nossa realidade. E, para iniciar a série, nada melhor do que o artigo “Neurobiologia e Psicologia da Violência” de Wilson Daher, que trata de um tema palpitante e bem atual. Ao indagar sobre a origem da violência humana, o estudioso, seguindo a doutrina de Sigmund Freud, pai da psicanálise, remonta à primitiva sociedade patriarcal, centrada sobre o todo poderoso chefe da tribo (mais tarde, o“pater famílias” dos romanos), com direitos absolutos sobre seus dependentes, podendo chegar até ao incesto e à pedofilia para satisfazer seus instintos animalescos. Os antigos gregos personificaram essa tendência primordial da humanidade na figura de Zeus, o pai de todos os deuses, que em Roma era adorado com o nome de Júpiter.
A autoridade opressiva, além do pai de família, pode ser qualquer governante (monarca, presidente, governador, prefeito), chefe de polícia, professor, padre, pastor ou rabino, político ou funcionário público prepotente, que se sirva do seu cargo ou função para tiranizar subalternos ou levar vantagens.  Tal comportamento é uma doença que a psicanálise relaciona com a figura de Júpiter, transformando o mito em complexo, assim como fizera com o mito de Édipo (o amor do filho pela mãe). E porque a violência gera violência, aos poucos, na medida em que a sociedade humana toma consciência da violação de seus direitos, vão surgindo movimentos de revolta contra os detentores do poder político ou econômico.
Historicamente, as maiores violências contra a humanidade estão relacionadas com o fanatismo religioso (árabes vs judeus, muçulmanos vs cristãos, católicos vs protestantes, xiitas vs sunitas) ou uma ideologia política (o Nazismo de Hitler e o Comunismo de Stalin). Nosso país, felizmente, não sofre desses problemas, mas, em compensação, acusa um forte descalabro político devido ao nefasto sistema eleitoral que permite a compra dos votos. Como bem releva Wilson Daher, são poucos os arruaceiros movidos por impulsos psicopatas ou ideológicos, pois os movimentos de cidadãos trabalhadores são apenas contra o Pai-Estado que esmaga seus filhos-súditos pela corrupção, injustiça social, apropriação indevida do dinheiro de nossos impostos. Aí está a causa primordial da violência na cidade e no campo, pois o exemplo da criminalidade vem de cima. O perigo maior é que a autoridade se transforme em autoritarismo que, para sustentar-se no poder, acabe com as liberdades democráticas, instalando alguma forma de ditadura.


Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP

Autor das seguintes obras:
Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso (Editorama)
Pesquisando - teoria e prática de uma monografia (Editorama)

www.salvatoredonofrio.com.br

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