Assim tropeça a humanidade


Por Dante Filho*

Em fevereiro do ano passado, no ato comemorativo dos 10 anos do PT no poder, militantes animadinhos espancaram uma jornalista da Folha de São Paulo, derrubando-a no chão com chutes na barriga e, aos berros e com os dedos em riste, chamaram-na de “prostituta da imprensa”.

O fato teve tratamento tímido na mídia. Repercussão quase zero. Mas ali estava configurada uma metodologia de relação das “esquerdas” com a “imprensa burguesa”. Desse jeito, passo a passo, num processo de reverberação espontânea, chegaria até os dias de hoje com o assassinato do cinegrafista da Band, Santiago Andrade.

Quem imagina que uma coisa que ocorreu no passado não tem relação com este trágico acontecimento recente não conhece a vida. A violência é um fenômeno que, quando não contido na origem, entra em fase de expansão contínua. Sem freios, não há limites. Na maioria das vezes a resposta deve ser entrópica, pela força de reação equivalente ou pela aplicação rigorosa da lei. Deixando tudo rolar – como vem acontecendo -, retroage-se ao estágio da barbárie, com homens se transformando em lobo dos homens.

O ponto de inflexão deste desdobramento histórico foram as jornadas de junho: a massa difusa saiu às ruas pacificamente e os partidos de esquerda apresentaram-se para brincar juntos. Foram rechaçados. Daí, a militância ressentida partiu para a ignorância. Foi como se dissessem: “se não podemos entrar na brincadeira, vamos melar tudo”. E partiram pro pau, contratando black blocs para a linha de frente da quebradeira.

Nesse bafafá, no mundo paralelo das redes, a imprensa tornou-se a principal inimiga a ser combatida. Abriu-se a temporada de caça aos jornalistas. A chamada grande mídia entrou na clandestinidade para poder trabalhar na cobertura das manifestações.

Uma coisa meio surrealista, mas que tinha certa lógica: a turma ninja desejava a conquista da hegemonia da informação sobre acontecimentos sociais cuja pauta teria que ser, obrigatoriamente, propriedade privada de grupos minoritários do quebra-quebra.

Muitos profissionais da imprensa entraram neste jogo, achando que defendendo “a causa” dos revoltadinhos de boutique ganhariam a simpatia dos seus algozes. Santa ingenuidade. Mesmo assim, o mundo seguiu seu curso. E a massa se afastou das ruas com medo. O PT e congêneres ganharam a parada. Arrefeceram as manifestações.

Até a semana passada a coisa vinha dando certo. A política de hostilização de jornalistas inspirada por Franklin Martins & associados ganhava espaço com a formalização da ideia de que havia no País uma “mídia golpista”. Mais: que essa imprensa havia se transformado num partido político contra um governo popular.

Por incrível que pareça, tem gente que acredita nessa maluquice. É plausível que numa democracia grupos sociais tenham direito de vender sua versão da realidade para conquistar corações e mentes. Mas a subversão de fatos, com a tentativa de mistificar a política com teorias conspiratórias, inventando inimigos imaginários apenas visando demarcar espaço eleitoral, deveria ser objeto de condenação não somente ética, mas também legal, principalmente se isso leva a atos violentos.

A lavagem cerebral a que vem sendo submetida uma boa parcela da moçada de esquerda contra conceitos de liberdade de expressão e opinião – com todos os relativismos que isso impõe – fará germinar um tipo de fascismo cujos primeiros sintomas estamos presenciando nos últimos dias.

Pelas informações disponíveis, mesmo com o trauma provocado pelo assassinato do cinegrafista Santiago Andrade, os enfurecidos remunerados não darão trégua: querem mais sangue, suor e lágrimas. Como disse um dia aquele francês, passaremos da barbárie à decadência sem nunca ter conhecido a civilização.

*jornalista e escritor (dantefilho@terra.com.br)

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