A banalidade do mal

Arendt: a maldade humana analisada

Por Salvatore D'Onofrio


Outra noite assisti, num canal da NET, o filme “Hannah Arendt”, uma biografia da filósofa alemã de origem judaica, autora do livro “Eichmann em Jerusalém”, publicado em 1963. Nesse estudo, Hannah Arendt defende sua polêmica tese da “banalidade do mal”. Já residente nos EUA, como jornalista do The New Yorker, ao cobrir o julgamento do nazista Adolf Eichmann, condenado à morte em 1961, mostra que nem todos os que participaram do genocídio dos judeus eram monstros, pois estavam cumprindo ordens de seus superiores. O holocausto foi possível porque não apenas Hitler e os generais da SS, mas a maioria do povo alemão, como também membros de outras etnias, era anti-semita. A maldade se torna “banal” quando é cooptada ou tolerada por muita gente. Os crimes de guerra são considerados normais e até éticos, pois executados em nome de ideologias em que o povo acredita. Algumas pessoas chegam a matar ou a se suicidar em nome de um Deus!

Pensando bem, quem é culpado pelos maiores desastres da humanidade é um povo ainda ignorante e crédulo, que se deixa levar por líderes políticos ou religiosos. A massa popular que condena à morte Sócrates, o sábio grego que nos ensinou a pensar, e Jesus Cristo, o palestino que nos ensinou a amar, é a mesma que se curva aos piores tiranos da história humana, aplaudindo monstros tipo Napoleão, Hitler, Stalin, Mão Tse Tung ou Saddam Hussein. E os crimes que se cometem em tempo de guerra não são piores dos que se perpetram em época de paz, sob a égide de governos considerados democráticos e por eleições tidas como livres.

Senão, vejamos: há algum crime mais hediondo, por suas dolorosas conseqüências, do que a corrupção política? Se a gente conseguisse calcular todo o mal que os políticos corruptos fazem à sociedade! O Japão, o primeiro país a usar a tecnologia do trem-bala, ligando Tókio a Osaka, já a partir de 1959, propôs construir uma linha férrea de alta velocidade, conectando São Paulo ao Rio de Janeiro em apenas duas horas. O projeto, chegado a Brasília, sofreu o boicote dos parlamentares que cederam às pressões das companhias de automóveis, caminhões, combustíveis, pneus, aviação, que temiam a perda de lucros pela concorrência. Já faz mais de meio século que projetos de trem de alta velocidade não saem do papel no Brasil, um país de dimensão quase continental, enquanto na Europa já há trens que passam por baixo do Canal da Mancha, ligando rápida e confortavelmente Paris a Londres.

Se nosso transporte ferroviário (trens e metrôs) tivesse sido melhorado, em lugar de sucatado, quantas mortes de gente, obrigada a usar estradas de rodagem mal conservadas, não teriam sido evitadas, sem falar da economia de tempo, conforto, segurança. E que dizer, então, do sofrimento causado pela insuficiência do atendimento médico, hospitalar e odontológico, da precariedade das escolas públicas que não oferecem às crianças pobres atendimento em tempo integral, proporcionando-lhes também educação artística e esportiva, da falta de planejamento familiar para não gerar filhos sem condições decentes de sustento?

Quem é culpado por tanta miséria social e pela conseqüente violência na cidade e no campo? Sem dúvida, é a Presidência da República, que coopta Deputados e Senadores com 39 ministérios, centenas de secretarias e milhares de cargos públicos, para ter apoio parlamentar, e os pobres com vários tipos de bolsas assistenciais, para obter os votos que garantam a permanência de seu partido no poder. Mas isso não seria possível se a maioria do povo não considerasse normal o roubo do erário público, reelegendo os políticos de sempre. Está confirmada, portanto, no Brasil, a tese de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal.


Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
http://pt.wikisource.org/wiki/Autor:Salvatore_D%E2%80%99_Onofrio

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