Sobre bichos e petistas


Por Salvatore D' Onofrio

“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”

Assim falou o porco Napoleão no último capítulo do livro A Revolução dos Bichos, o título brasileiro da obra “Animal Farm” (A quinta dos animais), do escritor inglês George Orwell, publicada em 1945. Quem sugere a leitura deste imortal trabalho de ficção é a coordenadora pedagógica Silvana Ianelli Euzébio, no Jornal da Educação (Diário da Região, 25 de fevereiro), encontrando nele um alto valor educativo por estimular a busca da verdade e o sentimento de justiça. Muito apropriadamente, ela define o texto como “fábula moral com sátira política”.

Sintetizando a história ficcional: na fazenda do Sr. Jones, chamada “Granja do Solar”, o porco Major promove uma revolta dos bichos submetidos a trabalhos escravos pelos humanos parasitas que viviam dos bens produzidos pelos animais em condições miseráveis. Aos gritos “quatro pernas bom, duas pernas ruim” e “ser humano bom é ser humano morto”, todos os animais, chefiados pelos porcos. Napoleão e Bola-de-Neve, na Batalha do Estábulo, conseguem uma grande vitória, expulsando o fazendeiro e seus empregados. Com o novo nome “Granja do Bicho”, os animais começam a tocar a fazenda por conta própria, alguns aprendendo a ler e a exercer outras funções anteriormente exclusivas dos seres racionais. Mas, na passagem da animalidade para a humanidade, os bichos acabaram praticando os mesmos vícios que condenavam antes. Os porcos, considerando-se mais inteligentes, começam a escravizar os outros animais, impondo mais trabalhos, enquanto os chefões se beneficiavam da produção coletiva. Napoleão briga com Bola-de-Neve, o acusa de traição e se reaproxima do antigo dono da fazenda. A Granja do Bicho retoma o nome Granja do Solar e o lema da propaganda é alterado: “quatro pernas bom, duas melhor ainda”. Porcos e humanos se locupletam nas benesses do poder, mantendo os demais bichos como escravos.

Esta fábula de Orwell deu ensejo a diversas interpretações, ora vista como sátira do regime comunista, ora como negação do autoritarismo ou proposta de anarquismo, ora apontando o conformismo da sociedade face à podridão política. A meu ver, seu melhor sentido reside em nos fazer perceber como a força do poder econômico e político corrompe nossa mente, invertendo posturas perante a vida. Exemplo evidente e recente, no Brasil, é a involução do PT, o Partido dos Trabalhadores. Fundado em 1980 por dirigentes sindicais, intelectuais de esquerda e sociólogos ligados ao Catolicismo, o partido se distinguiu pela luta contra a ditadura militar e a corrupção política, em nome de uma maior justiça social, defendendo a força do trabalho contra a exploração dos donos do poder, bem como o início de reformas estruturais no tocante educação, saúde, transporte coletivo... Mas, chegado à Presidência da República em 2002, o PT começou a fazer o inverso do que vinha prometendo. A antiga oposição, ao se tornar situação, vira de casaca, cooptando os políticos mais corruptos e a parcela do povo mais necessitada, através da distribuição de cargos públicos e de cestas básicas. A ditadura pelas armas foi substituída pela ditadura do voto, os petistas preocupados apenas em manter-se no poder. Se a massa popular percebesse o perigo que corre nossa democracia, se o mesmo partido ficar no poder por décadas! O Brasil corre o risco de tornar-se uma grande Cuba ou Coréia do Norte, onde o partido comunista reina há mais de meio século. Minha alerta não é proveniente de espírito faccioso, pois sempre votei no PT, até o Presidente Lula se candidatar ao segundo mandato, quando tomei consciência de que o PT era farinha do mesmo saco. Democracia é alternância no poder e não apropriação do bem público!

Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
http://pt.wikisource.org/wiki/Autor:Salvatore_D%E2%80%99_Onofrio

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