Construindo uma cidadania



Por Salvatore D'Onofrio


“Apenas a derrubada de ídolos e líderes possibilita o surgimento de uma democracia de verdade”



O título deste pequeno artigo, “Construindo uma cidadania”, é o mesmo do último capítulo do meu livro “Pensar é Preciso”, disponibilizado para leitura gratuita na Wikipédia. Na Apresentação desta obra, publicada pela Editorama de São Paulo em 2009, o psiquiatra Wilson Daher, colega da Academia Riopretense, releva que “Pensar é Preciso” estimula o leitor “a pensar por si mesmo na busca de soluções para seus problemas existenciais”. Realmente, ao redigir este trabalho intelectual, fui guiado pelo desejo de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, fundamentada sobre o mérito dos cidadãos e não na caridade pública. Precisamos nos convencer de que é uma falácia esperar o melhoramento social de líderes políticos ou profetas religiosos.

Surfando pela história das várias civilizações (egípcia, greco-romana, budista, judaica, cristã, muçulmana), pode-se verificar que a massa popular sempre foi e continua sendo manipulada pelos donos do poder, como se fosse uma manada de ovelhas que precisam de um pastor. Há muitos séculos, povos vêm sendo mantidos num mundo de fantasias ou de falsas ideologias. Os homens continuam se matando uns aos outros, em nome de um Deus ou de uma Pátria, configurações estas que existem apenas numa imaginação infantil. Infelizmente, o progresso da humanidade é muito lento. O homo sapiens levou milênios para levantar as patas dianteiras e começar a olhar para o alto e para longe, alargando seus horizontes. Pelo aumento da quantidade e da qualidade dos neurônios, o cérebro humano, distinguindo-se da animalidade, começou a querer entender o mundo em que vivia. Apavorado por tempestades e não se conformando com o sofrimento e a morte criou mitos, projetando sua felicidade num mundo sobrenatural e divinizando reis ou heróis.

O napolitano Gianbattista Vico, que viveu na primeira metade do séc. XVIII, considerado o Filósofo da História, na sua principal obra “A Ciência Nova”, apresentou a sugestiva tese dos “cursos e recursos históricos”, uma lei natural pela qual a evolução de estados ou nações acompanharia o mesmo modo do progresso do ser humano, pela sucessão de três fases: infância (idade dos deuses), juventude (idade dos heróis) e maturidade (idade dos homens). A primeira fase é considerada teológica por ser dominada pela crença na existência de seres sobrenaturais, que dariam ordens através de reis, profetas, oráculos, fadas (o mundo mágico das crianças e dos seres primitivos); a segunda fase seria a idade dos guerreiros construtores de repúblicas aristocráticas; a terceira, a fase da razão, em que o homem adquire consciência de que na natureza não há diferença de classes sociais e o conhecimento da realidade advém pela reflexão filosófica e experimentação científica. Para Vico, o processo evolutivo não é linear, mas cíclico: depois de um “curso”, pode haver um “recurso”, uma volta à barbárie, motivada pelo egoísmo e ambição dos líderes. Isso explicaria o fim do Egito faraônico e do Império Romano.

Muitas sociedades modernas, em que a educação não chega à base popular, não conseguem superar o estágio da percepção intuitiva própria da idade infantil. Gente inculta tem dificuldade em perceber que a terra é uma bola que gira vertiginosamente, porque não consegue entender como as pessoas possam andar de cabeça para baixo, visto que sua experiência é dos objetos caírem no chão e não de serem atraídos pelo magnetismo. Assim, a grande massa desinformada acredita em líderes políticos ou religiosos que a induzem a seguir crenças ou ideologias tradicionais, mesmo contrárias à verdade histórica, à descoberta científica, aos direitos de cidadania, à felicidade individual.

Apenas povos do Norte da Europa (anglo-saxões e escandinavos), atualmente, alcançaram um bom nível de cidadania. E isso porque deixaram de acreditar em chefões carismáticos (alguém, por acaso, sabe quem governa na Suécia, Suíça, Bélgica ou Dinamarca?), tipo Hitler, Stalin, Saddam Hussein, Fidel Castro ou Lula, que ficam décadas no poder. Eles construíram uma democracia participativa com alternância no poder de apenas dois partidos, um conservador e outro liberal, para o vencedor ter maioria absoluta e não depender do apoio de partidos de aluguel. Os cargos públicos por indicação são reduzidos ao mínimo, sendo a quase totalidade dos funcionários gente de carreira, que não muda a cada eleição e ao sabor do apadrinhamento. O dinheiro dos impostos é utilizado, fundamentalmente, para atender às necessidade básicas do povo: eficiente sistema educacional e de saúde, transportes coletivos funcionais (trens velozes e metrôs).

A meu ver, o sucesso dos povos anglo-saxônicos, comparativamente aos de origem latina, reside em dois pilares: o amor ao trabalho e o culto da cidadania. O que é “público” é de todo o mundo, devendo ser respeitado e usado exclusivamente em benefício da coletividade. Tal verdade, mesmo sendo inquestionável, não interessa aos homens que fazem da política uma profissão para se enriquecerem. O que causa estranhamento é a sociedade civil continuar permitindo que governantes legiferem em causa própria, salvaguardando imunidades e mordomias. Bastaria uma maciça campanha para não reeleger os que estão ou já estiveram no poder, em vista de que nenhum político pode ser considerado honesto, pois, se não é corrupto, é conivente ou omisso. Reconduzir no poder um atual político é carregar na consciência a culpa de tantos crimes cometidos contra nossa sociedade. Votar em gente nova seria a esperança da realização das tão sonhadas reformas estruturais. Não seria essa a medida mais certa? Mas, como diria Arnaldo Jabor: “Só os visionários enxergam o óbvio”!




Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
http://pt.wikisource.org/wiki/Autor:Salvatore_D%E2%80%99_Onofrio

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