‘Nós’ e ‘eles’, a perversa divisão

As ilusões de quem vê a modernidade eletrônica como trincheira

Por Paulo Saab, jornalista e escritor

Eles precisam do clima de guerra para ter um discurso
Texto publicado originalmente no jornal Diário do Comércio
23 /04/2014

O PT realizou semana passada, durante os feriados, na zona rural de São José dos Campos, um evento de grandes dimensões, com militantes do partido, reunidos na forma da “campus party”, seu “Camping Digital” – segundo se noticiou, para o partido “orientar seus seguidores sobre como se portar na web nas eleições” deste ano.

Duas constatações imediatas: uma, a de que o partido precisa ditar o comportamento de seus “seguidores” – instalados em barracas de camping com a estrela vermelha da agremiação – e segunda, que mostra a vontade de controlar também o que vier a ser divulgado na internet durante o processo eleitoral.

Claro que tudo seria mais fácil se não houvesse eleição; se fosse um partido único e eterno no poder, e toda a sociedade, doutrinada, uníssona, reverberasse, por crença infundida, que obedecer ao comando dos líderes e conduzir a massa populacional a seu jeito, seria o ideal.

É o que se busca, na verdade, mas até que isso aconteça – se acontecer – ainda será preciso muito trabalho e doutrinação, para utilizar os mecanismos da liberdade democrática para extingui-la.

Uma “diretiva” emanada na década de trinta do século passado previa um novo ensinamento, em que os temas centrais seriam “a coragem na batalha, o sacrifício por uma causa maior, admiração ilimitada pelo Líder e ódio aos inimigos…”

Sempre se soube que no desencontro infinito de suas paralelas, as ditaduras de esquerda e de direita pregam a mesma doutrina: a dominação das populações pela força intelectual e física das lideranças, usando como massa de manobra os militantes, os seguidores.

Quem na década de trinta na Europa doutrinou e impôs-se pelo fanatismo e força?

Quem a partir do final da primeira década do seculo 20 e nos setenta anos seguintes doutrinou e impôs-se pelo fanatismo e força? De um lado, nazistas, e de outro, comunistas.

Voltando ao “camping” petista, o presidente do partido no estado de São Paulo, Emídio de Souza, tido como coordenador da campanha do candidato petista ao governo paulista em 2014, foi taxativo ao dizer aos “seguidores”, ao final da jornada em que foram treinados para impor a verdade do partido nas redes sociais: “Não deixem ataque sem defesa”.

Antes, alguém já havia dito que as redes sociais são um novo espaço de disputa (politica, eleitoral) onde os petistas devem adotar a linguagem do “meme”, imagens de compreensão simples, com cunho humorístico, em vez do discurso de panfleto, com textos longos e chatos que ninguém lê.

Estão todos atentos às palavras do inefável, condestável Gilberto Carvalho, ministro da Secretaria-geral da Presidência, o que financiou com verba pública a tentativa de invasão do Palácio do Planalto pelos Sem-Terra. Segundo ele, “a imprensa mente pra caramba” e por isso “há a necessidade de fazer um esforço de propaganda para servir de contraponto ao noticiário negativo” (qualquer crítica ao petismo é uma invocação “à coragem na batalha, sacrifício por uma causa maior, admiração ilimitada pelo Líder” – claro que com odinheiroque o governo achaca do pagador de impostos no Brasil.

Há regimes que ainda resistem ao normalismo histórico, dos quais Cuba e Coreia do Norte são exemplos concretos e a Venezuela um arremedo – onde era e é necessária a manifestação óbvia de lealdade ao poder vigente, sob risco de ser colocado do outro lado da linha, com tudo que o ódio aos inimigos é capaz de gerar.

O Brasil – e isto não sou eu quem digo, apesar de já ter dito – vive o que o Estadão chamou, em editorial, como objetivo do PT, de dividir o País entre “nós” e “eles”.

A visão histórica do período lulopetista, em que Dilma é mera figurante de instrumentalização das diretivas, é que “eles” sabem tudo, fazem o bem, o melhor, buscam salvar o país, são puros, inocentes e belos, e “nós”, os que deles discordam, não fazemos o bem, somos os piores, não sabemos nada, não queremos o melhor para País, somo impuros e feios.

O comunismo e o nazismo morreram e são partes trágicas da evolução (ou involução) da história do homem no planeta. Mas, ambos, fundamentaram suas criminosas ações em cima do “nós” e “eles”, adaptados, emoldurados às necessidades e características de cada época.

A mesma história do homem no planeta (e falamos do período recente dos últimos quase cem anos) escancara aos olhos das pessoas capazes de discernir, sem ideologia do ódio ou da lavagem cerebral, que somente nos regimes de liberdade plena, com todos os seus defeitos e virtudes, o ser humano pode buscar ser feliz. Tutelado, ele é sempre um infeliz, mesmo fingindo ser feliz.

O mundo de hoje não comporta mais tutela. Clama por liberdade total, com as necessidades de existência ou subsistência sendo supridas à luz das possibilidades, do comprometimento de todos, através da transparência e do debate sério em torno de políticas públicas e não de políticas de dominação.

O Brasil tem sido vítima do engodo, das diretivas e das falácias. Em nome da liberdade, contra ela se conspira. Em nome da igualdade social se busca a “nomenklatura”.

Há esperança. No voto. Cada brasileiro precisa diferenciar as condições verdadeiras do país e as que a propaganda oficial mostra – falsos brilhantes, espelhinhos, quinquilharias que nos dão em troca da total dominação.

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