Paternidade responsável

Por Salvatore D' Onofrio



No Brasil, a partir de 14 de agosto de 1953, dia de São Joaquim, pai de Maria e avô do Menino Jesus conforme a tradição evangélica, considerado o patriarca da família, começou a ser comemorado o dia dos pais, os que nos deram a vida. Posteriormente, por motivos comerciais, a data foi fixada no segundo domingo de agosto. O exemplo da efeméride nos veio de Washington (USA), quando, em 1910, Sonora Dodd, filha de um veterano da guerra civil, quis homenagear seu pai que, viúvo, cuidou dos seis filhos. Esta data nos deve servir para, além de presentear nosso progenitor, fortalecer os laços familiares e nos fazer refletir sobre o profundo sentido da paternidade.

O poeta latino Horácio escreveu um verso antológico: “Non omnis moriar” (Não morrerei inteiramente), porque parte de mim, minha poesia, restará para sempre. E, com efeito, os versos do poeta da Roma antiga, passados dois milênios, ainda hoje estão vivos, traduzidos para todas as línguas cultas, nos dando ensinamentos de vida através da arte literária. Mas, o que nos torna eternos não é apenas o livro que escrevemos, a árvore que plantamos, o quadro que pintamos, mas mormente o filho que educamos. Nós não sabemos se existe um mundo sobrenatural, uma vida após a morte, se o espírito (a alma) pode sobreviver sem o suporte da base cerebral. A única certeza é que nossa vida continua na nossa prole, de geração para geração, de uma forma imortal, através da carga genética e da educação que transmitimos de pai para filhos. É isso que nos torna eternos. Daí a imensa responsabilidade da paternidade e da maternidade.

É significativo o fato que, ao nascer, enquanto o bebê chora, seus genitores esboçam um largo sorriso de contentamento por satisfazer o instinto natural da continuação da espécie. Pois bem, a este direito de procriar deveria corresponder o dever de assistir o recém-nascido ao longo de toda sua existência, especialmente na infância e na adolescência, quando mais precisa de ajuda, pois é quando se forma sua personalidade. O direito de um homem e de uma mulher terem filhos não pode anular o direito de um filho ter uma mãe e um pai que cuidem da sua existência.

Infelizmente, no Brasil e em outros países com grandes bolsões de miséria, há gente que põe seres humanos no mundo como se fossem coelhos, “ao Deus cria”, sem as mínimas condições econômicas e psíquicas para cuidar do desenvolvimento satisfatório do fruto de uma relação sexual, amorosa ou ocasional, pouco importa. Ainda hoje, num mundo que se acha civilizado, há camponeses que se orgulham de ter parido dúzias de filhos! Como se isso fosse um mérito! Se pai verdadeiro é quem educa, como um casal (ou, pior, uma mãe solteira) pode cuidar satisfatoriamente de muitos filhos? Não há crime maior do que dar à luz um ser humano sem poder garantir-lhe casa, comida, saúde, educação e, sobretudo, amor. A responsabilidade paterna é insubstituível e o desajuste de uma criança abandonada se reverte em incalculável prejuízo para a coletividade toda, pois é aí que se encontra a origem da marginalidade.

Como nossos governantes respondem a esta questão fundamental de cidadania? Com omissão ou hipocrisia! Os políticos, pelo medo de perderem os votos das grandes camadas religiosas, induzidas a não usarem contraceptivos e a suportar uma gravidez indesejada por motivos morais, fazem vista grossa e não apresentam nenhum plano eficiente de controle de natalidade. Através de programas assistenciais, especialmente da bolsa-família, o governo acaba estimulando a procriação irresponsável, pois há gente pobre que põe mais filhos no mundo para ganhar, para cada criança, uns trinta reais a mais por mês. O controle da natalidade, através de medidas preventivas e ajuda à gravidez indesejada, é fundamental para evitar a marginalidade e os conflitos étnicos, provocados por jovens pobres e despreparados que abandonam suas cidades em busca de abrigo em outras regiões ou países.

Evidentemente, o problema da explosão demográfica não é apenas do Brasil e somente de agora. Já Aristóteles, no século IV a.C. observara: “Quanto mais desenvolvida for a espécie, menor será sua prole”. O filósofo grego foi um profeta: compare-se, atualmente, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de um suíço, que não se permite ter mais de dois filhos, com o de um indígena ou africano, que põe filho no mundo sem responsabilidade. Clarice Lispector, questionando o direito de o homem pôr filhos num mundo onde reinam egoísmo, ignorância, fanatismo, sofrimento de toda forma, afirmou ficcionalmente: “Meus pais me perdoaram por eu ter nascida. Eu não”.



Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
http://pt.wikisource.org/wiki/Autor:Salvatore_D%E2%80%99_Onofrio
 

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