Marina Silva, mais um estilo de rancor a presidir um país?






Há um risco no ar. Análises que levem em conta, por antecipação, que uma pessoa já está eleita presidente. Há um tipo de noticiário que faz falta no Brasil de hoje. Aquele que tinha a marca da análise arriscada, que mergulhava no universo do entrevistado, nos seus modos, suas falas, seus gestos e então traçava um quadro mais complexo e mais realista do cidadão em tela.

Há poucas, pouquíssimas, notícias sobre declarações, atitudes, gestos de Marina Silva nas conversações de bastidores. Parece que há uma combinação de apenas noticiar o óbvio, com exceção de um ou dois analistas.

A grosseria que Marina cometeu com uma única frase, deixando o principal coordenador da campanha de Eduardo Campos em estado de profunda irritação, não mereceu grande destaque. Mas ali estava o atalho para um caminho mais largo, mais revelador.

Como foi mesmo que Marina tratou o PV quando foi preciso se definir em relação ao apoio que daria no segundo turno? Chamou uma comissão de fora do partido. Um partido sério tomaria isso como um tapa na cara. Pior, ela se disse neutra, enquanto apoiava de fato o PT.

E agora, José? A Petrobras acabou, o mensalão escapou, Lula se safou, o governo se amoitou. Como agirá Marina a bordo da Presidência da República, sabido que ela evita fazer qualquer crítica a Lula? Fará silêncio conivente como se também pensasse o mesmo que a raia intermediária do PT diz pelos corredores das prefeituras infestadas de sinecuras?

Marina Silva mandará aprofundar investigações ou selará a boca da Polícia Federal?

E o que diz essa gente cooptada com cargos públicos, comissões especiais, testemunhas de várias e várias mamatas que o Brasil talvez nunca conheça? Essa camada de povo diz que era necessário roubar, era o único caminho para o partido se fortalecer. Ou seja, para fazer algo novo em termos políticos era necessário fazer tudo o que era velho em termos políticos.

Ou o rancor falará mais alto? O rancor é o elemento mais novo nesta campanha política. Um tópico sobre o qual as colunas de jornal deixam de analisar, ocupadas que estão em paparicar estrelas, fofocas, plantar versões, impressionar figurões e com textos ruins de dar com pau, com honrosas exceções, naturalmente.

O PT mexeu no vespeiro do rancor alheio, neste caso o de Marina Silva. E o rancor é munição em tempo de guerra e de paz. E quem chega a presidente está obrigado a virar general. Collor teve a chance e teve de fugir pelo fundo das trincheiras, guardando rancores que ainda hoje vagam pelos corredores que o veem chegar.

Marina Silva já está em uniforme de campanha. Vê, sente, percebe a hora chegando de virar general. E seu coração parece seguir a toada do progressivo endurecimento.

O Brasil já teve vários tipos de general na Presidência, tivessem ou não essa insígnia. Se Marina vencer a disputa, o Brasil terá pela primeira vez um coração de general vestido de rainha, porque Dilma, sendo general eleita com sanção e benção de padrinho milagreiro, jamais mostrou vocação para atitudes sutis, era general em território ocupado, mal sabendo usar a língua, com a qual mais agride do que aconselha, um coração rancoroso também.

Tudo indica que o Brasil terá mais um estilo de rancor no comando, o rancor de um coração de general sem alegria, ou de alegria vingativa.

Já o rancor da galera continuará pelas ruas mesmo, nos assaltos, nos estupros, na violência que habita nosso cotidiano sem prumo e sem horizontes. Mas isso o rancor do próximo presidente não terá tempo para cuidar. Terá a base aliada para comprar, a governabilidade para usar como ameaça, as contas públicas para empurrar para cima da gente...

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