Cuide do seu ogro, ele pode fazer você morrer abraçado ao seu inimigo





O filme Relatos selvagens, com Ricardo Darín (acima), joga um pouco de luz sobre a animalidade humana.

Não somos os santos que pretendemos ser. Também não somos trogloditas ensandecidos, inocentes impotentes presos pela animalidade que explica nossa origem. Mas entre um limite e outro, é preciso tomar cuidado: debaixo da nossa pele existe um ogro astuto e perigoso, sempre à espreita, pronto para transformar um copo d'água numa desgraça.

Em resumo, essas são as linhas profundas que o diretor argentino Damián Szifron reuniu no filme Relatos selvagens, lançado este ano no Festival Internacional de Cinema. Entre os atores, o aclamado Ricardo Darín.

São seis episódios de curta duração. Começam sempre de uma maneira neutra, como parece ser a vida nas grandes cidades. No primeiro deles, parece haver uma citação a um filme de Buñel, “O obscuro objeto do desejo”. A história até conversa com Freud, mas segue em direção oposta, e deixará você preocupado se decidir viajar de avião nos próximos tempos. Vai que...


O terceiro episódio mexerá mesmo com os seus nervos. Em alguns momentos, você que participou das manifestações de junho de 2013, no Brasil, se sentirá representado. E talvez comece a ver sua impotência de um modo diferente. O ogro que nos habita não pode ficar preso numa estrutura paga para ajudá-lo. Mostra com exatidão como os funcionários públicos domam esse monstro tornando-se parasitas, talvez mais nefastos ainda.


E o sexto “capítulo” mexe num vespeiro: o casamento, esse modo de viver dos seres humanos que deveria servir apenas como aprendizado baseado em bons sentimentos, mas que apenas algema as pessoas debaixo do toldo do conto de fadas. Trincada a capa, os piores ímpetos do ogro vêm à tona.


Que bela invenção, o Facebook! Fez o ogro aprender a digitar, a mostrar para si mesmo que as teclas podem matar. Mas o aprendizado é válido apenas no modo virtual. É pouco.

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