A escolha de Venina

Querem construir um conto de fadas na Petrobras?

Por Lucas Tchermenko


Venina Fonseca pode ter sido escolhida a dedo para entrar na história como a salvadora da Petrobras. Parece estar em curso um figurino que tende a proteger Dilma e Lula.

A sequência de entrevistas, no ritmo de uma "pop star", com direito a 27 minutos do Fantástico, parece ser apenas uma das pontas de um jogo complexo, tão complexo quanto o esquema de desvios, roubos e falcatruas que hoje são a marca da empresa.

Venina parece estar promovendo uma espécie de movimento sindicalista “soft”. Começou de forma muito sutil, cresceu na entrevista da Globo e deve ganhar novos momentos nos próximos tempos. “É preciso que mais funcionários digam o que sabem”, disse ela, levando a argumentação de forma precisa e muito concatenada para um “chamamento” para salvar a empresa.

E quem sempre foi a cabeça sindicalista nos governos do PT desde o primeiro dia de Lula? Um apelo sindicalista pela base agora não funcionaria. Um sindicalismo “soft” é o único meio de as informações confidenciais circularem de forma controlada, o que significa dizer com objetivos específicos além dos genéricos, como salvar a empresa.

Quem teria condições de ser indicado para um esquema de denúncia? Somente um cruzamento de dados federal poderia fazer surgir um nome. E esse cruzamento quem está fazendo é a Polícia Federal. Que melhor nome poderia entrar em cena senão aquele que, aparentemente, é a prova de fogo? As “acusações” de Graça Foster contra ela são todas irrisórias, não têm peso sequer para que se abra um inquérito na Polícia Federal.

As respostas de Venina sobre contratos que envolvem o ex-marido fazem pensar num jogo muito bem pensado de variáveis. Um casamento estranho. Uma relação amorosa começa muito tempo antes de alguém definir um prazo e, então, romper um contrato com base no grau de exposição desse relacionamento. Haja sangue frio para pensar nisso nos termos em que o envolvimento foi apresentado. A palavra amor não se encaixa em nenhum pedaço da versão.

No tempo de exposição a que teve direito no Fantástico algumas características de Venina vieram à tona. O tempo todo ela mostra um ímpeto para sorrir mas que, controlado a tempo, vira um meio sorriso. Às vezes mesmo um meio sorriso fala mais do que deve. Que o digam Jo-Ellan Dimitrius e Wendy Patrick Mazzarella que precisam decidir num simples franzir de sobrancelhas se um jurado é “sim” ou “não”.

Venina dá a impressão de conhecer as perguntas de trás para frente e de frente para trás. Havia um quê estranho na forma como Venina olhava para a repórter enquanto esta elaborava suas perguntas, longas demais e sem olhar nos olhos da entrevistada. Enfado? Senso crítico típico de quem percebe no repórter um idiota, representando o bobo da corte?

O esquema Venina parece levar em conta que, no Brasil de hoje, tudo o que diz respeito ao governo provoca suspeitas do mais ingênuo ao mais calejado cidadão. Nada seria mais importante do que um movimento nascido nos quadros da empresa que mostrasse ao grande público que uma quadrilha comandava tudo sem o conhecimento dos superiores mais graúdos. Mas bolas! Só tem graúdo nessa empresa.

Graça Foster já participou de “treinamento” quando da convocação da CPMI, aquela desmoralizada iniciativa do Congresso que o PT controlou e desarmou a tempo. O treinamento parece estar em evolução, agora com novos atores. Jogar mais peso nas costas de Paulo Roberto Costa é algo básico. Para quem já está com o nome mais sujo do que pau de galinheiro duas acusações a mais nada acrescentarão, ao contrário, confirmarão que ele é o “cara” a ser pego, o cara que poderia derrubar Lula, um Lula inocente, coitadinho...

E se as “revelações” de Venina foram todas combinadas? Com quem? Quem pensou nisso? Quem a escolheu? Será Venina o nome que “une o partido”, tornando-a nova presidente ideal da empresa? A iniciadora de um movimento de moralização na Petrobras na linha da moralização heroica de Joaquim Barbosa no STF? Um movimento que nos fará esquecer dos vários crimes cometidos, da montanha de dinheiro roubado? Um movimento de proteção travestido de movimento de reação?

O meio sorriso de Venina tem um clima conspícuo, que ela até agora, má atriz que é, não consegue evitar. Esse meio sorriso parece estar dizendo que ela se sente muito segura, fazendo parte de algo que os mortais não poderão adivinhar.

Quem disse que fazer o diabo é somente colocar fogo, fraudar urnas, mandar matar?

O tempo será de novo o senhor da razão. Ainda é cedo. Os atores contam com a passagem mais lenta do tempo, tanto pelo esquecimento que provoca quanto pelo esfriamento do noticiário, afinal o mesmo tema cansa, vira arenga, lugar-comum. Repousa no destino de dois nomes a explicação para a escolha de Venina.

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