Política é profissão?


Por 
Salvatore D' Onofrio

“Só os visionários enxergam o óbvio” (Arnaldo Jabor)




O jornalista Arnaldo Jabor relata a seguinte confidência feita-lhe pelo dramaturgo Nelson Rodrigues: se Deus perguntar para mim se fiz alguma coisa que preste na vida para entrar no céu, responderei: “Sim, Senhor, inventei o óbvio”. Infelizmente, a maioria da população, incluindo pretensos filósofos, cientistas ou artistas, não enxerga a realidade das coisas que estão ao alcance de um simples olhar inteligente. Seguindo o instinto gregário, o povo se alimenta do caldo cultural em que foi criado, sem pensar sobre a possibilidade da mudança de uma realidade que nos faz sofrer.

É tão difícil tomar consciência de que o bem estar social não está na dependência de ídolos religiosos ou líderes políticos? Transporte coletivo eficiente e barato, educação em tempo integral, assistência médica, dentária e hospitalar satisfatória, segurança pública, são obrigações do Estado e não favores dos governantes, pois os gastos administrativos seriam suficientemente cobertos pelos salgados impostos que pagamos, se os políticos não fraudassem o erário público.

Precisamos perceber que a falha está no sistema político e não nos partidos ou nos indivíduos. Se um médico, economista ou professor deixar de lado suas atividades para abraçar a carreira política, evidentemente deverá viver disso. Com raras exceções, os candidatos visam a atividade política como uma forma de investimento: gastam sua fortuna ou de patrocinadores na campanha eleitoral com o intuito de recuperar o capital multiplicado. Para viver apenas de política pelo resto da vida, o político é obrigado a cuidar do seu reduto eleitoral com o fim de poder-se reeleger sucessivamente, fazendo barganhas, inclusive conspurcando seus ideais, para conseguir legendas e verbas para a próxima candidatura, até conseguir uma polpuda aposentadoria.

Se for assim, por que não cortar o mal pela raiz, desestimulando a carreira política? Governar um país, estado ou município deveria ser considerado uma vocação e não uma profissão remunerada. Caberia ao Estado pagar apenas as despesas feitas durante o desempenho da função e dar algum pro labore circunstancial. Nada de privilégios, mordomias, aposentadorias, liberação de verbas públicas, contratação de assistentes sem concursos. Para exercer as funções públicas o político deveria ser assistido apenas por funcionários de carreira.

Em vista de que a Presidência da República e os poderes do Legislativo e do Judiciário não estão interessados em promover uma reforma constitucional para valer, acabando com o profissionalismo na política, as custosas campanhas eleitorais e o continuísmo no poder, caberia à Sociedade Civil iniciar um movimento de conscientização para moralizar a entrada e a permanência na vida política. ONGs que cuidam de democracia, cidadania e transparência, ajudadas pelo “quarto poder”, constituído pelos meios de comunicação, deveriam convocar as forças vivas da Nação (Ordem dos Advogados, Sindicatos, Uniões de Estudantes, jornalistas, artistas, cientistas) para uma reformulação da classe política. O projeto seria submetido à apreciação de todos os cidadãos, via Internet e outros meios de mídia interativa, para acolher sugestões. Sua redação final seria objeto de aprovação popular via Referendum ou Plebiscito, independentemente da vontade dos congressistas.

Anteriormente a uma reforma do sistema político, qualquer eleição deveria ser considerada eticamente ilegítima. Um país é realmente democrático quando o voto popular é expresso livremente, sem nenhuma obrigação de ordem física ou econômica. Ora, se o povo mais necessitado, que constitui a maioria dos eleitores, vende seu voto em troca de um benefício qualquer, sua escolha não está sendo livre. O voto de cabresto é a negação do próprio princípio democrático por causar um verdadeiro mercado: irá vencer quem tiver mais dinheiro para gastar ou, estando já no poder, oferecer mais regalias. Nossa desgraça é que o regime de prepotência ainda não acabou: apenas conseguimos substituir a ditadura pelas armas por uma ditadura pelo voto. Quem enxergar tal obviedade é considerado um visionário!


Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
http://pt.wikisource.org/wiki/Autor:Salvatore_D%E2%80%99_Onofrio

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