Fanatismo funesto

Por Salvatore D'Onofrio


“Tantum religio potuit suadere malorum!”

(Até que ponto a religião pôde induzir a cometer maldades)

Precisamos necessariamente refletir sobre o recente atentado à sede do semanário satírico “Charlie Hebdo”, causando 12 mortes, inclusive o falecimento de famosos jornalistas de humor, para vingar uma presumida ofensa ao profeta Maomé, espalhando o terror na cidade de Paris e a inquietação em todo o mundo civilizado. A frase que coloquei na epígrafe deste meu artiguinho encontra-se no poema “De rerum natura” (Sobre a natureza das coisas) do sábio romano Lucrécio (98?-55 a.C.), ao descrever o sacrifício da jovem e bela princesa Ifigênia, conduzida à morte pelo próprio pai Agamenão, para aplacar a ira da ciumenta deusa Diana. Horror semelhante se encontra no relato bíblico do sacrifício de Abraão disposto a imolar seu único filho para obedecer a uma ordem divina.

Após milênios de cultura, os homens ainda continuam matando e se matando em nome de um Deus. Apesar dos maravilhosos avanços da ciência, que nos estão levando ao conhecimento mais profundo da natureza do microcosmo, do macrocosmo e, sobretudo, do cérebro humano, a maioria dos povos ainda acredita na fábula da criação do mundo em sete dias, considerando o minúsculo planeta Terra como centro do universo, no pecado original, na intervenção divina para orientar nossos desejos e destinos pelas palavras de presumidos profetas, que teriam recebido a incumbência de salvar a humanidade (mas do quê?).

A figura histórico-lendária do primeiro grande profeta, Moisés (século 12 a.C.), encontra-se no cruzamento das quatro maiores civilizações da humanidade: egípcia, grega, romana e judaica, esta última continuada na era cristã. Moisés, chefe carismático, condutor e legislador do povo judeu, lutou para que os antigos hebreus tivessem uma pátria, a terra prometida de Canaã (Palestina), um conjunto de leis (Torá) e adorassem um único Deus (Jeová). Ele teve o mérito de dar unidade a tribos nômades e construir uma nação, assim como fará, bem mais tarde, no século sétimo depois de Cristo, Maomé, juntando as tribos árabes dispersas no deserto, sob a égide do deus Alá.

Repare-se que Maomé, o pai da religião muçulmana, está irmanado com Moisés, o chefe dos judeus, pois ambos descenderiam do lendário patriarca Abraão, na origem das três religiões monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo). Moisés (Velho Testamento) e Cristo (Novo Testamento) estão ligados a Jacó, mais tarde chamado Israel, filho de Isaac, que nasceu milagrosamente de uma relação de Abraão com a velha esposa Sara. Anteriormente, Abraão tivera um caso com a escrava egípcia Hagar, de quem teve o filho Ismael. Repudiada, a jovem levou o menino para a Arábia. A tradição islâmica reconhece Ismael como o ancestral do povo árabe e da religião muçulmana, pois a ele o arcanjo Gabriel teria confiada a custódia da Pedra Negra, venerada na cidade da Meca.

A figura de Moisés transcende a cultura judaica, pois as Tábuas da Lei (os Dez Mandamentos, que já se encontravam no mais antigo Código Hamurábi, rei da Babilônia, no século 18 a.C.), resumem o conjunto de normas cívicas e morais, que deveria ser seguido por qualquer agrupamento social, independentemente de seu credo religioso. Os dez mandamentos poderiam ser reduzidos a um só, o 5°: “não furtarás”. Quem observar este mandamento, que ordena o respeito ao que é do próximo, não se apropriará de nenhum bem material ou espiritual, público ou privado, a que outra pessoa tenha direito. Este mandamento corresponde ao “imperativo categórico”, formulado bem mais tarde pelo filósofo alemão Emanuel Kant (1724-1804): “não faça a outrem o que não gostaria que fosse feito a ti”.

Se, no fundo, todos os povos considerados civilizados descendem dos testículos do patriarca Abraão, por que dar continuação à secular e sangrenta luta entre radicais islâmicos e defensores da cultura judaica ou cristã? O fanatismo religioso, que leva ao choque de civilizações, só pode ser motivado pela ignorância, de que se aproveitam os poderosos para dominar a grande massa popular. Precisaríamos despertar, em nós e nas nossas crianças, o espírito crítico para duvidar de nossas certezas religiosas, políticas ou morais e respeitar outras culturas. Nenhum profeta é santo ao ponto de não poder ser contestado, criticado, ironizado. Moisés e Maomé foram apenas grandes guerreiros que, de uma forma facciosa, levaram seus povos ao sucesso, em detrimento de outros. Só Jesus Cristo pode ser considerado o profeta do amor universal, mas seus adeptos, ao longo da história, também cometeram barbaridades: Cruzadas contra os mouros, Tribunal da Inquisição, Guerra dos Cem Anos (entre os séc. XIV e XV: França e Papado de Avinhão vs Inglaterra e Alemanha), o massacre da Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), quando ocorreu a maior repressão católica aos protestantes huguenotes: aproximadamente, 50 mil assassinatos apenas numa noite! Só podemos pensar num fanatismo maior, se considerarmos que a jihad (guerra santa) muçulmana está se propagando pelo mundo todo, ameaçando as conquistas democráticas e a liberdade de expressão!

Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
http://pt.wikisource.org/wiki/Autor:Salvatore_D%E2%80%99_Onofrio

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