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O que o PSDB precisa fazer para ser PSDB?





Por Alexandre Graviloff

Há poucas semanas diante de uma plateia formada por diversos deputados tucanos da Assembleia Legislativa paulista, além de integrantes do DEM, PSD e PP, que elogiava e aplaudia Serra, o senador disparou uma de suas famosas pérolas: "Para entender o PSDB, só com psicanálise".

Não seria de todo ruim recordar que há duas décadas vivíamos a mesma síndrome de identidade, a ponto da direção do partido ter elaborado um documento denominado "PSDB no divã", a partir de entrevistas com 25 líderes tucanos e de relatos sobre atividades dos diretórios.

Qual foi a linha principal do documento? Que os tucanos queriam se diferenciar do PFL e ganhar força na aliança que apoia o governo e a candidatura de FHC à reeleição em 1998.

Ipsis litteris do documento: "O PSDB está apequenado, mirrado, sem capacidade de divulgar seus conceitos ao país. Com isso, tem perdido a guerra da comunicação para partidos que fazem menos e aparecem mais e melhor".

Entre os tucanos que deram entrevistas para o "PSDB no divã" estavam os ministros Sérgio Motta (Comunicações) e Paulo Renato (Educação), o governador Tasso Jereissati (CE) e o próprio senador José Serra (SP). FHC não foi ouvido.

As críticas dos tucanos ao seu próprio partido iam desde a falta de comando e planejamento na gestão do PSDB até a ausência de "companheirismo" e solidariedade entre os militantes. "Faltam emoção e paixão. O PSDB precisa ter um sonho político grandioso", diz o documento. "Não há comprometimento dos funcionários, cumprimento de horários e os arquivos estão desorganizados", completa.

Outra falha citada é a comunicação interna e externa "precárias". Parte dos tucanos entrevistados afirmou que o partido deve "ter um rosto, uma imagem própria".

Para contornar os problemas mencionados, os tucanos recomendaram que um executivo profissional, ligado ao PSDB, cuide do funcionamento do partido.
Pela nova estrutura prevista no documento, o secretário-executivo e sua equipe só ficariam abaixo da Executiva Nacional na hierarquia do partido.

No entendimento de que o Secretário-Executivo além da capacidade de gestão, deveria também espelhar a ideologia partidária, a direção nacional contratou o Engenheiro mecânico Paulo Pedrosa graduado pela Universidade de Brasília.

Passados 20 exatos anos o PSDB ainda se ressente da crise de identidade, haja vista a recente e significativa frase do nosso senador por São Paulo.

E o, na época escolhido, Secretário Executivo do PSDB trocou a sala do Edifício VARIG da Asa Norte pelo assento de Secretário Executivo do Ministério de Minas e Energia, cargo que ocupa atualmente no governo Michel Temer na cota tucana.
O maior jornal britânico The Guardian relata em sua reportagem que:

“O governo inglês despachou para o Brasil o ministro do Comércio, Greg Hands, que veio ao Rio de Janeiro, onde manteve reuniões com Pedrosa.”

"Greg Hands se encontrou com Paulo Pedrosa, vice-ministro brasileiro de minas e energia, e "diretamente" levantou as preocupações das empresas petrolíferas Shell, BP e Premier Oil britânicas sobre "tributação e licenciamento ambiental". Pedrosa disse que estava pressionando seus homólogos no governo brasileiro sobre as questões, de acordo com um telegrama diplomático britânico obtido pelo Greenpeace".

Assinala ainda o Guardian:

“O secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Pedrosa cedeu ao lobby do governo inglês para mudar as regras de exploração do petróleo, em benefício de multinacionais como a Shell e a BP.”

O periódico completa o texto:

"O governo do Reino Unido negou que fosse lobby para enfraquecer o regime de licenciamento ambiental, embora a campanha de lobby mostrou ter dado frutos. Em agosto, o Brasil propôs um plano de alívio tributário de vários bilhões de dólares para perfuração offshore e, em outubro, a BP e a Shell ganharam a maior parte das licenças de perfuração de águas profundas em um leilão do governo".

Diz The Guardian mais à frente:

"Diplomatas britânicos descreveram o enfraquecimento dos chamados requisitos de conteúdo local como um "principal objetivo" porque a BP, a Shell e o Premier Oil seriam "beneficiários britânicos diretos" das mudanças".

O resultado final acabou na forma da venda dos direitos de exploração da camada do pré-sal para as multinacionais, além da perda de mercado para as empresas brasileiras e na renúncia fiscal de cerca de R$ 1 trilhão.

No dia 25 de junho de 1988, meses antes de promulgada a remendada carta cidadã, fundou-se um partido na esperança de construir um Projeto para o Brasil.

Passados quase 10 anos este já se ressentia acuado pela síndrome de identidade, tanto que deitou no divã.

Após quase 30 anos um dos seus principais fundadores afirma que precisa de psicanálise para entender a sua cria.

Em 2018 serão exatos 30 anos, e também neste ano teremos a oportunidade de eleger um segundo presidente tucano.

Há que se ter um projeto muito consistente e mentes muito brilhantes para pensá-lo, assim como pessoas de notória honradez para executá-lo.

Após tantas argumentações a conclusão a que chego é que não é tão simples a tarefa de elaborar uma idéia conclusiva.

Isto foi impossível porque este tema não tem final, tem começo. Não encerra idéias, abre perspectivas.

Não conclui, instiga.

Presumo que pretendi ir além dessas fronteiras.

Deixo uma conclusão inconclusa para provocativamente instigar a insurgência de novos paradigmas.

Novos tempos pedem um diálogo entre o novo e o tradicional e é exatamente para ele que pretendi convidar.

E sob a égide deste novo diálogo podemos perceber que a verdadeira política deve emanar dos processos “construtores de” e “construídos por” processos sociais. Há nela um conjunto de fatores culturais menos visíveis, mas não menos constitutivos das indagações e das respostas.

Durante muito tempo, o discurso adotou como seu ideal a aparente univocidade: uma palavra, um significado.

Considerando que mundo é rico em evoluções imprevisíveis, cheio de formas e fluxos turbulentos caracterizado por relações não-lineares entre causa e efeito e fraturado entre escalas múltiplas de diferente magnitude assistimos à dissolução dos discursos homogeneizantes e totalizantes.

Não existe narração ou gênero do discurso capaz de dar um traçado único, um horizonte de sentido unitário da experiência da vida, da política, da ciência ou da subjetividade. Há histórias no plural.

O mundo tornou-se intensamente complexo e as respostas não são diretas nem estáveis.

Desta forma esse novo tempo pode ser entendido como o tempo da CRIATIVIDADE, da GENERATIVIDADE, da restauração dos elementos singulares, do local, dos dilemas, da abertura de novas potencialidades.

Sentirem-se partícipes/autores de uma narrativa, da construção dos relatos históricos, é uma das vias de que dispõem os indivíduos e os grupos humanos para tentar atuar como protagonistas de suas vidas, incluindo a reflexão de como emergimos como sujeitos, de como somos “participantes de” e “participados pelos” desenhos sociais.

Essa perspectiva está intimamente conectada com o desenvolvimento dos trabalhos comunitários, a inclusão social e o conceito de “organizações que aprendem”.
Seu ponto principal é a criação coletiva do futuro, o que aumenta o compromisso e o envolvimento das pessoas.

Esta abordagem foi no decurso do tempo sendo construída relacionando-se com os conceitos de senso de comunidade e de desenvolvimento de competências.

Ao percebemos a extrema importância de pertencer a um espaço onde ocorrem processos que envolvem diferentes níveis de realidade como o senso comum, conhecimento e visão político-ideológica, interagimos com as nossas individualidades, valores, símbolos e compromissos.

Isto pressupõe que deve existir um novo diálogo com a capacidade dos envolvidos de deixarem de lado antigas percepções e escutarem atentamente o que o outro diz, com o objetivo de se construir pensamentos e idéias que de forma isolada e individual não seriam possíveis.

E este novo diálogo ocorre pelo entendimento de que a diferença é boa para a vida em qualquer esfera e circunstância.

É o resultado do reconhecimento de reciprocidade de intenções e propósitos e de um ambiente que incentiva a tomada de decisões, nas quais as discordâncias não inviabilizam as ações, pois o respeito e o saber se relacionar com as idéias, comportamentos e valores do outro, sem paralisia e sem perder o foco, é determinante.

Creio que uma das minhas metas foi apontar possíveis caminhos para a superação do corporativismo e do individualismo, entre outros, na busca de um agir consciente, crítico e reflexivo como sujeito e membro de uma instituição.

Percebemos que as políticas em última análise consistem em necessidades e interesses, valores e normas, objetivos, planos, programas, recursos e avaliações relacionadas uma ação dada ou a uma ação em potencial, e a prática inclui políticas e ações dentro do contexto das estruturas e processos determinados, tanto aqueles sobre os quais se atua, como aqueles que condicionam os resultados das ações.

O compartilhamento de conhecimentos deve buscar uma nova maneira de ser, em que o importante é restituir ao sujeito sua integridade criando um novo sistema de reflexão e ação no qual a atitude diante do saber é a da busca contínua de modo que o conhecimento possa ser horizontalmente compartilhado por todos e contribuir para um mundo melhor.

A principal dificuldade que consigo vislumbrar é assegurar a qualidade da interação entre os indivíduos e suas comunidades, respeitadas todas as diferenças, a partir da compreensão de que seus atores não são apenas instrumentos, mas sujeitos na permanente construção de uma sociedade caracterizada pela justiça social e pela vida democrática.

Cabe, pois a eles escrever a verdadeira conclusão final.

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